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Conversão da linguagem à verdade e à simplicidade

Uma mudança, ainda que seja de um simples modo de dizer e de saudar, comporta sempre alguma dificuldade. Os vincos, com o peso das ideias e modelos que vêm de longe e acompanham as pessoas, levam mais a repetir que a mudar. Têm mais força do que se pode imaginar. Mesmo depois de se refletir e optar em sentido novo, nem sempre se impõe, de um momento para o outro, uma linguagem mais significativa e coerente. Não se impõe porque muitos não querem mesmo mudar e aceitar o nivelamento normal, porque se colaram ao pelouro.

D. António Marcelino
14 Jul 2013

A sociedade hoje iguala facilmente as pessoas, mas mantém o farisaísmo no modo de as tratar publicamente, pensando talvez que a importância das mesmas lhes vem dos superlativos que se lhes atiram para cima. Há um velho ditado que diz: “Excelência em Portugal, monsenhor em Itália e dom em Espanha não valem uma castanha.” A verdade, porém, é que todos estes epítetos, que significam bem pouco, continuam a engalanar os que gostam e se sentem lisonjeados com tal tratamento.
A Igreja, quando entrou no jogo de uma sociedade feita por clero, nobreza e povo, pôs a imaginação ao serviço de títulos honoríficos, muitos dos quais, apesar de terem perdido o sentido, perduram sem solavancos. Por vezes, até entraram no templo, onde, com frequência, se ouve o pároco, em linguagem profana, saudar o seu bispo com um “excelência reverendíssima”. Seria minimizá-lo dizendo simplesmente “senhor bispo”, ou, melhor ainda, “irmão bispo”. Os superlativos são para Deus. Na Igreja, embora com tarefas diferentes, todos são iguais, filhos e irmãos. Aqui está a verdadeira honra.
O Papa Francisco, que hoje todos gostam de citar e recordar, deu o tom da simplicidade, na sua pessoa e na linguagem. É preciso trazer à comunidade cristã o seu testemunho de verdade evangélica e conciliar. Logo a seguir à sua eleição, ao dirigir-se aos cardeais, pôs de parte o tradicional “eminência” e saudou-os, singelamente, por “senhores cardeais”.
A Igreja tem por dever contribuir para a edificação e renovação da comunidade eclesial e, também, a seu modo, da sociedade civil, propondo e defendendo a verdade e a liberdade, a justiça e a paz, a dignidade e o trabalho de cada um e o dever do serviço aos outros. Igual dignidade, igual respeito, igual apreço, cada um segundo o que lhe é próprio, sem que isso permita que se cons-
truam diferenças, degraus e dignidades de tempos, que nem é bom recordar. Se numa celebração litúrgica se põe em destaque o que a ela preside, bispo ou padre, é só porque este está ali não por mérito próprio, mas em lugar de Cristo, que preside ao louvor do Pai e ao serviço aos irmãos. Por isso, o presidente de uma assembleia litúrgica é quem mais sente em si a necessidade de ser humilde e simples, como o Senhor o foi entre os seus discípulos e no meio das multidões que a Ele acorriam. Apenas lhes mandou que aprendessem com Ele e fizessem como Ele fez.
É tempo de na Igreja se deixar a linguagem profana e empolada dos superlativos vazios e de se usar a linguagem fraterna, que, ela, sim, é sempre verdadeira, evangélica e respeitosa. Este desiderato não se consegue na sociedade civil, que, por rotina e farisaísmo, cultiva os exageros da linguagem, mas que volta as costas e logo fala sem respeito e muitas vezes de modo vulgar e baixo.
Na Igreja, não será difícil a mudança se os mais responsáveis e também os mais novos derem o tom da simplicidade, reagirem aos superlativos e estimularem, nesse sentido, as pessoas e as comunidades. É a lógica da doutrina do Vaticano II posta em prática e o testemunho do Papa Francisco. Fiéis ao essencial, nivelam sem anular, distinguem sem lisonjear.
A linguagem traduz o pensamento. Mudá-la ou conservá-la é dizer qual é o mundo interior de cada um, o modo como se situa na Igreja e na sociedade, o grau de relação que privilegia, os valores por que luta, os projetos do Reino e da sociedade pelos quais se bate. O jogo realiza-se entre a verdade e a simplicidade e a vaidade e a presunção.




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