Fotografia:
A “obra” da democracia nacional

Aparentemente, ninguém tem dúvidas que Portugal está muito mais moderno e muito mais desenvolvido do que no tempo de Salazar/Marcelo Caetano. Também não restam dúvidas que a sociedade portuguesa avançou nas áreas da educação, da saúde e da protecção social. No quadro destas “evidências” importa apurar, de relance, as causas que provocaram o salto qualitativo verificado. Numa abordagem estritamente histórica é fácil de caracterizar a situa-ção social e económica do tempo anterior a 1974. Éramos um povo que vivia no “orgulhosamente sós”, com uma guerra “colonial” em várias frentes em África. Uma sociedade pouco qualificada e extremamente dependente do sector primário.

Armindo Oliveira
13 Jul 2013

Na política, dominava o partido único com uma liderança fortíssima que não era permeável à existência de correntes de opinião e de pensamento contrárias à doutrina imposta pelo Estado. Financeiramente, o país tinha uma reserva de ouro de 847 toneladas e divisas em moeda estrangeira na ordem dos 100 milhões de contos. (Basta pensar que a ponte 25 de Abril custou 2 milhões e 200 mil contos). Na economia, a inflação era inexistente, não havia dívida “soberana”, o escudo era uma moeda forte e havia crescimento económico. A emigração era um fenómeno social e laboral que esvaziava o país, mas cujas remessas enviadas enchiam os cofres do Estado. Défice não era palavra daquele tempo.
Em 1974 dá-se a “Revolução de Abril” que rasga o manifesto programático e ideológico do governo da “ditadura” e Portugal abre-se ao exterior, permitindo que a liberdade de pensamento, de ideias e de opinião se implantem com naturalidade no país. É o tempo da democracia, dos partidos políticos, da imprensa livre e do desmantelar da sociedade baseada na máxima: “Deus, Pátria e Família”.
Como era de esperar, o caos social surge “democraticamente” e em força. Os movimentos da esquerda radical, com os PREC, os SUV, comissões de moradores e outros, impõem um caderno de reivindicações perfeitamente destrutivo e sectário, baseado nas nacionalizações selvagens, na perseguição aos “fascistas”, nos saneamentos políticos, na intolerância aos ricos e colocam, em pouco tempo, o país na ruína, na miséria e à beira de uma guerra civil.
Em 1986, Portugal adere à União Europeia. O país é economicamente atrasado, socialmente pobre e culturalmente analfabeto. Tem vinte anos para se desenvolver e modernizar para ser mais competitivo no seio da Comunidade Europeia. Para isso, recebe avultados fundos estruturais a rondar os 81 mil milhões de euros. Se fizermos umas simples operações aritméticas verificamos que a democracia delapidou um património financeiro colossal e cujo desenvolvimento não corresponde em nada à falácia proferida por alguns “cérebros democratas” que dizem à boca cheia que o país está muito melhor, com outros horizontes e com outras oportunidades. Confiramos, portanto, as contas e ficar-se-á com uma ideia clara do desperdício e da má gestão praticada pelos nossos governantes: 81 mil milhões vindos da União Europeia, mais 200 mil milhões que temos de dívida para pagar, mais a pesada herança das 474 toneladas de ouro já vendidas no valor calculado de 4,5 milhões por tonelada, o que perfaz a módica quantia de 2,14 mil milhões de euros e dos 100 milhões de contos que hoje podem corresponder a 50 mil milhões de euros. Se fizermos bem as contas, o montante deve rondar os 350 mil milhões de euros. Isto, de facto, é muito dinheiro que não se coaduna com o estado de desenvolvimento do país. Portugal está melhor, mas não foi à custa do talento dos governantes, nem à custa dos ganhos de crescimento.
Recuperando o “famigerado” Relatório das PPP para fundamentar a ideia de má gestão democrática e da irresponsabilidade dos governantes, escrevia Luís Marques no Expresso de 22/06/2013: “Está lá tudo o que nos levou à falência. A incompetência, a irresponsabilidade, a fraude, o compadrio, o poder de quem manda sem atender aos verdadeiros interesses do país. É uma mistura de políticos sem carácter, autarcas sem vergonha, banqueiros gananciosos e empresários sem escrúpulos”. É caso para perguntar: É esta a democracia que queríamos construir? É esta a grandiosa e valiosa obra da democracia nacional? Valeu a pena “investir” tantos milhares de milhões de euros em “estradas, pontes e estádios, se hoje não temos dinheiro sequer para os pagar! Valeu a pena “investir” carradas de dinheiro na Educação para ver os nossos jovens a serem “expulsos” do país por falta de trabalho! Pobre democracia, pobres governantes!
Sem dúvida, “este é o retrato da nossa vergonha” como dizia em título o articulista do Expresso.




Notícias relacionadas


Scroll Up