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Do parecer ao ser

Não sei se algum dia narrei o que vou contar. Se me repito, peço desculpa. Há uns bons anos, no tempo em que dirigi o «Diário do Minho», apareceu-me um dia um senhor a solicitar a publicação de um programa de uma festa. Nele se dizia que um dos números era presidido pelo Prelado da Arquidiocese, ao tempo D. Eurico Nogueira. Ora eu sabia, de fonte segura, que nesse mesmo dia e a essa mesma hora o Prelado deveria estar noutro local e alertei para isso o meu interlocutor. Resposta deste: a gente anuncia que o Prelado vai presidir. Se, depois, preside ou não, o caso é outro. É evidente que, em nome da verdade na informação, o jornal anunciou a festa mas omitiu a presidência do Prelado. 

Silva Araújo
11 Jul 2013

Sempre prezei, diga-se de passagem, a verdade na informação, o que não significa que sempre tenha informado com verdade. Casos houve em que fontes em que acreditei me enganaram. No caso a que me refiro, não me deixei levar.
 
Trouxe o facto para aqui, volvidos tantos anos, porque a estratégia, em muitos casos, permanece a mesma. Anunciam-se coisas que depois se não concretizam. Fazem-se promessas que posteriormente se não cumprem. Há toda a preocupação de conquistar simpatias dizendo coisas que se sabe positivamente não serem verdade.
Vivemos numa sociedade muito preocupada com o parecer. Com o dar a ideia de que. Com projetar determinada imagem. Mesmo que o ser diste léguas do parecer. Mesmo que a imagem em nada ou quase nada corresponda à realidade. Mas diz-se. Apregoa-se. E sempre haverá alguém que vá na onda.
 
O culto da imagem leva à programação de coisas espetaculares. De grandes paradas, manifestações, concentrações. De coisas de encher o olho. Mas depois, verifica-se que tudo o que se fez não passou de uma habilidosa encenação.
Uma coisa é trabalhar e outra, dizer que se trabalha. Uma coisa é fazer e outra, anunciar a intenção de. Uma coisa é ser produtivo e outra, fazer vento. Agitar e agitar-se. Não falta quem, eloquentemente, fale de si. Quando vamos analisar as obras, ficamos desiludidos.
Hoje, mais que nunca, exige-se do comum dos cidadãos o dom do discernimento e do juízo crítico. Para que saiba distinguir a realidade das aparências. Para que se não deixe levar pelo que indivíduos bem falantes dizem. Para analisar o que realmente fazem certos pregoeiros.
Perante a vaga de informações que lhe chegam, o comum dos cidadãos tem necessidade de saber descodificar. Para não ser levado. Para não ser tratado como carneirada. Para não andar a bater palmas a comportamentos merecedores de censura e a pôr a segurança em coloridos balões portadores de coisa nenhuma.
 
Pensarmos pela nossa cabeça é uma atitude que mais do que nunca se exige no tempo em que vivemos. E exige-se também que, no momento próprio, digamos o que queremos e o que pensamos. Nos demarquemos. Porque, infelizmente, não falta quem, abusivamente, fale por nós. Gritam que os portugueses querem isto ou rejeitam aquilo sem que muitos dos cidadãos lhes tenham passado procuração para falarem em seu nome.
 
Ouvir o povo. Dar a palavra aos portugueses. Mas quem assim clama limita-se a escutar meia dizia de compadres, como se esses representassem a totalidade dos portugueses. Diz-se que o povo quer o que, na realidade, só querem os que tal afirmam, e pouco mais.
 
Voltando às minhas memórias. Tempos houve em que algumas pessoas invadiam o jornal com comunicados cuja única assinatura era: «um grupo de cidadãos». Perguntava-se o nome de quem subscrevia de verdade o comunicado, de quem se responsabilizava pelo que estava escrito, e às vezes somente o portador do papel se sentia na obrigação de não fugir a dar a cara. Havia «grupos» de um, de dois, de meia dúzia. Minorias atrevidas e interesseiras que se arrogavam o direito de falar em nome de todos. E como a história se repete, há hoje quem, atrevidamente, fale de florestas quando, na realidade, apenas há alguns arbustozitos.




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