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Um texto que irmana duas vidas

1 Nem só de palavras é feita a comunicação. A comunicação é feita de palavras e de gestos. As palavras enchem páginas, os gestos preenchem a vida. Mas há palavras que se fazem eco de gestos. Há páginas com muito saber e imenso sabor. Há páginas com sabor a vida.
2. É por isso que a comunicação vai muito para lá do que é emitido pelos lábios ou do que é vertido pelos textos. A verdadeira comunicação é um sopro da alma, uma emanação da profundidade da pessoa.

João António Pinheiro Teixeira
9 Jul 2013

3. A mensagem da «Lumen Fidei» transcende as palavras que a compõem. Antes dos conteúdos que ela veicula, há que fixar a atenção nas atitudes que a alimentam.
Trata-se de uma poderosa lição de humildade e simplicidade. É notória a humildade de Bento XVI, que entrega o fruto do seu trabalho ao seu sucessor. E é notável a simplicidade de Francisco, que aceita falar ao mundo com palavras e ideias que, em grande parte, são do seu antecessor.
4. Entre Bento XVI e Francisco não existe apenas uma sequência. Subsiste, assumidamente, um entrelaçamento.
Este é, pois, um texto que irmana duas vidas. E que, no fundo, visa fraternizar todas as vidas: as nossas próprias vidas.
5. Avulta uma retrospectiva do que foi o pontificado de Bento XVI e uma prospectiva do que poderá vir a ser o pontificado de Francisco.
Salta à vista que esta é uma encíclica escrita a quatro mãos e que reflecte dois percursos. É um texto que constitui o espelho de um contexto: o contexto de duas trajectórias, de dois percursos de missão.
6. Importante será, desde logo, perceber que a luz da fé permite-nos entrever a fé como luz.
A fé não é obscuridade. A fé é companhia na obscuridade. A fé transporta uma luz que incendeia a própria obscuridade. Pelo contrário, «quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor» (n. 4).
7. A fé oferece-nos «olhos novos» e «uma luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo» (n. 4).
Esta luz não nos subtrai às nossas responsabilidades cívicas. Ela «desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na história» (n. 8).
8. Definitivamente, a fé não é uma ilha. Não pode ser isolada nem insulada.
A fé nunca é fé se não se exercita no amor: «O crente é transformado pelo amor, ao qual se abriu na fé» (n. 21). É pelo amor que se conhece verdadeiramente Jesus. É pelo amor que se recebe, de algum modo, a visão própria de Jesus» (n. 21).
9. O amor é o corolário e, nessa medida, o certificado da fé. Só há fé quando se ama. Transmitir a fé é viver – e testemunhar – o amor.
É por causa da sua ligação com o amor que «a luz da fé se coloca ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz» (n. 51).
10. A fé é irredutivelmente pessoal e indestrutivelmente comunitária. Nessa medida, a história de fé foi – e terá de ser sempre – «uma história de fraternidade» (n. 54).
Afinal, «quem crê nunca está sozinho» (n. 60). Os «olhos de Jesus» olham-nos também nos olhos de cada ser humano!




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