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Um Governo em cacos

No momento que decido o título, não se augura nada de bom para o país. Cobre-o um denso nevoeiro. Podia ser dos fogos que lavram nesta altura do ano, mas não é. É mesmo por causa do Governo e dos seus mandantes. Digo mandantes, com propriedade. Havia dois logo desde o início: o primeiro-ministro e o ministro Gaspar. Agora que o Gaspar se foi, que pediu a demissão, volta a haver dois: o primeiro-ministro, como não podia deixar de ser, mas muito fragilizado, e Portas que aparentemente parece agora mandar mais.

Luís Martins
9 Jul 2013

Só formalmente fica com o título de vice. Apesar do segundo representar um pequeno partido. Quem mandará, de facto, será Portas. Por várias razões: é Portas quem impõe as regras (apesar de não se conhecer o teor das conversas, de reunião para reunião, o demissionário foi conseguindo sempre mais do primeiro-ministro); Passos Coelho depende dele para manter o lugar no Governo e no partido (se o Governo cai, Passos não voltará a ser primeiro-ministro e já não será mais do que militante, por decisão pessoal ou por o partido não deixar); o momento é da economia e é Portas que manda na área (o que é fundamental vai estar nas suas mãos). Houve acordo, mas ele só é equilibrado na aparência: o PSD perdeu em toda a linha, ainda mais e de novo. É tudo a fingir, mas os actores dizem que não. Que não estão a representar em termos cénicos, que estão sim a representar o país. A questão é que o país não é propriamente uma peça, nem qualquer objecto de adorno, ou será?
Todos nós já alguma vez na vida deixamos cair uma peça e ela se estilhaçou aos bocados depois de contactar com o chão. Pois é, na vida política portuguesa isso também acontece. O Governo caiu, está no chão, estilhaçado, embora alguns digam que está apenas a descansar do tempo quente que passa pelo país e pelos ministérios, sem ar condicionado por causa da poupança. Não, não caiu no sentido formal. O primeiro-ministro foi claro ao dizer que se não demitia e o Presidente ainda não se pronunciou. Os líderes da coligação preparam-se para juntar novamente as pecinhas. Vão fazê-
-lo sem processo adequado, isto é, sem ir novamente ao forno e se obter uma peça nova, unida, com forma perfeita, resistente, sem emendas e fissuras, mas com recurso a qualquer adesivo ou a uma cola de fraca qualidade. O Governo não vai ficar bem. Ficará como uma peça reconstruída com os pedaços soltos ligados por cuspe ou, na melhor das hipóteses, por fita-cola. Não vai haver consolidação que resista ao tempo e à função. Não será necessário nenhum sismo ou abanão forte. Vai esboroar-se de novo à mais pequena abanadela. Mesmo que se ande de pés de lã e o soalho esteja bem assente. As peças vão cair novamente no chão e ficar ainda mais partidas. O dono não ficará tão atónito e triste como da primeira vez quando percebeu que a peça de estimação havia caído e ficado em mau estado, mas perceberá que tendo adiado a aquisição de uma nova para momento posterior pode não encontrar a melhor alternativa e o novo exemplar sair até mais caro. Adiar o inadiável pode ser um erro. Normalmente, é. Que custa caro, ainda por cima…
Desde o momento que escrevo até à publicação desta crónica a situação pode ter evoluído. Os cacos talvez estejam ainda no chão. Mas pode acontecer que a peça tenha sido polvilhada, o que nem seria mau de todo, tendo em conta o seu estado. Os remendos não são aconselháveis, ainda mais em peças que devem ter alguma dignidade e a de que falamos deve mesmo ter muita dignidade. Ou se troca de peça ou corre-
-se o risco da que está partida se esboroar de novo e definitivamente, perdendo-se o conteúdo que possa conter, o que seriam dois prejuízos de uma vez só. Sou apologista de que se construa a peça de novo. Até porque sempre se pode melhorar a resistência do material, indo-se à origem e não à concorrência. Já há muito que sabemos que o barato sai caro e não ficamos bem servidos. E sabemos também que a validação da solução pelo grande júri dá-nos uma outra garantia.




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