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E se nos levantássemos?

Por vezes um anúncio faz surgir em nós reflexões inesperadas. É esse um dos objetivos do marketing e já se sabe que, no caso desta campanha contra o sedentarismo, a ideia é vender mais refrigerante. Mas a pergunta não deixa de incluir um certo acento de revolta contra o status quo capaz de provocar consequências imprevisíveis a níveis insuspeitados. E se de facto começássemos por nos desprender dessas inúmeras cadeiras que nos tiranizam e nos impedem de sermos nós próprios a ir atender um telefone que está a tocar há séculos e ninguém se decide a levantar?

Maria Amélia Freitas
9 Jul 2013

Desses sofás em que nos enterramos horas a ver uma televisão improcedente em vez de ir arrumar a cozinha, fazer o café, ajudar a levantar a mesa ou simplesmente ir dormir que o nosso mal é sono? Do assento do carro, para fazer uma caminhada e ter aquela conversa com um filho ou um amigo; do lugar no autocarro – seja ele à janela ou na coxia – para o ceder a alguém mais idoso, carregado ou simplesmente necessitado?
São pequenas coisas corriqueiras e habituais. Frequentes.
Reais. Concretas. Acessíveis, apesar de nem sempre fáceis. Ocasiões de fazer a diferença, de alterar estatísticas, de alterar o ambiente, de viver valores como o Serviço, a Generosidade, o Auto-Domínio, a Amizade, o Respeito e tantos outros, de oferecer gratuitamente o presente de um pouco mais de atenção a quem está ao lado.
O fundador do Opus Dei, S. Josemaria Escrivá, o “santo da vida corrente” como lhe chamou João Paulo II e que festejamos a 26 de junho, recordava que não havíamos de fazer como Tartarin de Tarascon que desejava matar leões… nos corredores da própria casa. Isto é: situações extraordinárias, poucas vezes se apresentarão na nossa vida; o nosso é viver o ordinário, o quotidiano de forma extraordinária, sobrenatural. Fazemo-lo quando nos levantamos acima de nós próprios e atuamos como filhos de Deus e por amor do nosso Pai. Assim corresponde o cristão à sua identidade batismal: deixando-se levantar às alturas da santidade.
A vocação de qualquer de nós à santidade, a subir mais alto, a “ser mais altos, ser maiores”, na feliz expressão de Florbela Espanca, constitui o núcleo fundamental do magistério do Concílio Vaticano II e, por ter dito o mesmo desde 1928 e mostrado como se punha em prática, S. Josemaria Escrivá de Balaguer unanimemente reconhecido como um precursor do Concílio.
Como afirmou João Paulo II em 2002, “a fábrica, o escritório, a biblioteca, o laboratório, a oficina, o lar podem transformar-se em outros tantos lugares de encontro com o Senhor, que escolheu viver durante trinta anos na obscuridade. Poderia, porventura, pôr–se em dúvida que o período passado por Jesus em Nazaré fosse já parte integrante da sua missão salvífica? Portanto, também para nós, o quotidiano, na sua aparente uniformidade, na sua monotonia feita de gestos que parecem repetir-se sempre na mesma, pode adquirir o relevo de uma dimensão sobrenatural e ser transformado desse modo”.
Transcrevo alguns pontos de 2 livros conhecidos de S. Josemaria: «Tens obrigação de te santificar. – Tu, também. (…) A todos, sem exceção, disse o Senhor: ‘Sede perfeitos como Meu Pai Celestial é perfeito’» (Caminho, n.º 291); «estas crises mundiais são crises de santos» (ibid., n.º 301).“Hoje não bastam mulheres ou homens bons. Além disso, não é suficientemente bom quem se contenta em ser quase… bom; é preciso ser “revolucionário”. Ante o hedonismo, ante a carga pagã e materialista que nos oferecem, Cristo quer inconformistas! Rebeldes de Amor!” (Sulco, nº 128).
Ou seja: e…se nos levantássemos?




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