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Mandela

Eis um nome que identifica alguém de eleição. Tudo em Mandela me impressiona com a admiração que tenho pelo que é moralmente excecional. A sua luta pelo fim da discriminação racial no seu país, onde ela era mais feroz que em qualquer outro local da terra, a sua fé de que a cor da pele não determina a cor dos sentimentos, o seu sacrifício durante uma prisão de 27 anos, a sua renúncia ao poder. Isto enaltece-o mas não o glorifica. Parecer-me-ia impossível encontrar coisa de maior relevo na sua vida.

Paulo Fafe
8 Jul 2013

Mas encontrei nele a maior das suas virtudes: a enorme capacidade de perdão. Perdoou quem o traiu nos afetos de amizade ou amor, perdoou a quem o esqueceu na prisão nunca indo visitá-lo, perdoou aos seus carcereiros tanto aos que rodavam as fechaduras do presídio, como aos que o mandaram para lá. E esta capacidade de perdoar a este nível, é de uma elevação e grandeza de alma que o catapulta para uma dimensão que não alcanço; sinto-me perante esta impossibilidade de compreender, como agnóstico que não alcança Deus; um anão contempla um gigante. Só quem ama os outros como ele amava, pode perdoar como Mandela perdoava. Estamos perante um homem contemporâneo que matou a morte em vida. Não se tornou conhecido por vencer batalhas decisivas ou comandar exércitos vitoriosos no fragor das lutas épicas, não descobriu terras ignotas de gentios nunca vistos, não foi à Lua, não inventou, não foi cientista, não é um criativo ou inovador; nada disto foi e, no entanto, apenas com aquele sorriso de compreensão que se lhe estampa no rosto com pureza infantil, tão cândida como o perdão fácil, foi maior que todos eles e ganhou o reconhecimento mundial. Ganhou porque soube perdoar e pode perdoar porque soube amar. Na grande maioria das pessoas os afetos são uma troca de benefícios: amo-te mas espero que me ames, sacrifico-me mas espero que me compenses um dia. E nesta transação de afetos, ou na quebra deste “negócio”, normalmente, determinam-se ódios acérrimos e concretizam-se vinganças de famílias. Onde não há perdão não há amor. Aprendi isto com Mandela; haverá amor mais puro do que o que dá sem esperar nada em troca? Haverá amor mais puro do que aquele que paga com amor a amargura da ingratidão? Mandela está de partida para outra dimensão. Luta pela vida como deve ser. Rezam os amigos e as multidões para que fique uns tempos mais cá na terra. Sinais e indícios de que se fala de alguém excecional. E é verdadeira a prece e justo o desejo, não é vulgar encontrar na história da humanidade quem tenha tanto poder moral, espalhada com tal profusão, por todos os cantos do mundo, como água que se derrama da represa e se escapule para vicejar. Mandela é um homem que nada tem de divino mas porque é apenas humano, é que me admira o seu poder de perdoar. Nesta época em que tudo vacila e tomba para o egoísmo, Mandela é quem aparece a fazer lembrar a esta humanidade que há lugar para o perdão. Este texto é mesquinho como panegírico e modesto como homenagem. Fica-se pela tentativa de querer ser um pouco dos dois.




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