Fotografia:
Notas sobre a crise

A história desta crise do Governo tem andado muito mal contada na comunicação social e Passos Coelho tem aproveitado todas as oportunidades para atirar as culpas para Paulo Portas. Se fosse assim, podíamos concluir que ele entende que estava tudo bem e que Portas não tinha nada que reivindicar qualquer alteração da governação. Só que todos sabem que não estava tudo a correr bem e que estes dois anos de governação de Vítor Gaspar, como “primeiro-ministro” e ministro das Finanças, não foram bem-sucedidos.Tiveram algo de positivo, mas também deixaram o país em pantanas. Basta viver neste país para o saber. E o próprio Vítor Gaspar o reconheceu, na carta que deixou dirigida a Passos Coelho. Pelos vistos, Passos Coelho é o único que não sabe disto, pois recusa qualquer alteração da governação.

M. Ribeiro Fernandes
7 Jul 2013

Ora, qualquer pessoa honesta com responsabilidades no Governo e perante o estado do país não podia continuar a fazer de conta que estava tudo bem. No caso concreto, Portas não devia continuar a fazer de conta que tudo estava bem. Tinha de exigir mudanças na governação; mas, Passos Coelho nem quis ouvir Portas. Perante isto, só lhe restou uma hipótese: ameaçar com a demissão e provocar a queda do Governo. Ora, Passos Coelho nem quer ouvir falar de perder o poder. É esta a lógica da crise.
Não acredito que Portas ignorasse o risco do factor melindroso da Bolsa reagir mal a qualquer sinal de instabilidade governativa. Não lhe sobrou é outra alternativa senão esta para forçar Passos Coelho a fazer alterações. Até agora, ele tem-se remetido ao silêncio. Não respondeu ao jogo político de Passos Coelho em pretender tirar partido da crise para acusar o parceiro da coligação, ficando ele bem visto como o bom da fita. Mas, é uma questão de tempo aguardar para saber o que ele terá para dizer, quando for oportuno.
Dentro desta lógica (e não vejo que pudesse ter havido outra), se há alguém que sai muito mal desta crise é Passos Coelho, que reage sempre com um medo proporcional à sua insegurança. Ele tem gerido a coligação como se fosse uma empresa onde detém a maioria do capital e não ouve sequer o partido minoritário. Só que uma coligação dinâmica de governo não pode funcionar assim. Não pode fazer ao seu parceiro de coligação o mesmo que fez ao PS, à CGTP e depois à UGT e mesmo aos parceiros dos patrões. O PSD tem obrigação moral e política de analisar isto e ver se pode continuar a identificar-se com esta forma de governação.
Assumir que está tudo bem e recusar que não é preciso fazer nada de novo na governação do país diz tudo sobre Passos Coelho. No meio desta crise, também achei sintomático que alguns sujeitos do CDS reagissem contra Portas com receio de perder os seus empregos políticos. A sua atitude mostra que não olham para mais longe do que o seu umbigo de interesses pessoais. São os que berravam que Paulo Portas devia ser imediatamente substituído na liderança do partido. Gente sem visão política que confunde os seus interesses com o interesse do país. E não foram os únicos a reagir assim. Isto mostra o nível de tanta gente que anda atrás de cargos políticos.
Embora não tenha nada a ver com qualquer Partido, não tenho receio nenhum de elogiar a coragem política de Paulo Portas em pôr a espada ao peito de Passos Coelho para exigir alterações de governação, exigir que não se pode por mais tempo governar apenas em função de impostos e de austeridade sem cuidar também de pôr o país a crescer e de fazer o possível por criar emprego para tantos desempregados, de acabar com demonização dos funcionários públicos e dos reformados como as vítimas desta política de sentido único que deixou o país na miséria, porque também o critiquei quando entendi que não tinha razão.
Não se pode ficar indiferente aos protestos do povo. Basta andar pela rua para ver que há muitas desigualdades sociais (continuam a vender–se mais carros de luxo do que carros utilitários, as casas de luxo vendem melhor do que os simples apartamentos; as camadas jovens continuam sem horizontes de emprego e vão fugindo para o estrangeiro (o país forma jovens para a emigração); a reforma do Estado tem sido apenas uma mera operação de corte de funcionários públicos e de corte das pensões, continuando-se a ignorar que 72,4 milhões de euros vão apenas para os políticos, desde pensões, a vencimento dos deputados, a ajudas de custo dos deputados, a subsídio de reintegração de deputados, a ajudas de transporte de deputados… e que só para a campanha eleitoral de 2013 vão 48 milhões de euros.
Será que está mesmo tudo bem e que Portas devia estar quieto e calado?




Notícias relacionadas


Scroll Up