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Um olhar em redor

Certa personagem de Tchekhov olhando para os seus filhos, exclamou: “Meu Deus, o que eles vão ter ainda de viver”! É um facto. Contudo, o essencial é não deixar que a vida lhes destrua os sonhos (refiro-me aos jovens) visto que, perdidos os sonhos, nos perdemos também. A juventude, prezado leitor, tem um preço, o da desilusão, que a irá ferindo se nós, os mais velhos e experientes, não formos capazes de a respeitar, amparando-a e aproveitando aquilo que nela existe em estado puro, ou seja, a sua generosidade e a sua entrega total quando vêem que podem acreditar em nós.

Joaquim Serafim Rodrigues
6 Jul 2013

Procuremos, pois, os que formos capazes de o fazer, incutir-lhes desde muito cedo noções de civismo elevadas e condizentes com a sua idade, normas de procedimento correcto, honesto e digno, sem deixar de ter em conta a sua individualidade. Prestado esse contributo estaremos preparando os homens de amanhã.
Matéria sensível e delicada esta, principalmente nos tempos que correm e, que me lembre, sem paralelo em anos anteriores – direi até, sem ponta de exagero, em anos já longínquos. Em abono do que afirmo, consideremos então: onde e quando, como agora, foram os jovens apanhados neste turbilhão delirante em que predominam os mais fortes ou mais poderosos, mercê, muitas vezes, dos cargos que ocupam, sem respeito algum pelos mais fracos, mais pobres ou indefesos, contagiando assim aqueles, com tais exemplos vindos de cima e, pior ainda, destruindo-lhes toda aquela pureza de sentimentos que neles existe sempre?
Não há rapazes maus, mas sim rapazes diferentes! Aliás, certo filósofo alemão afirmou um dia: “Dai-me os primeiros seis anos de uma criança e mostrar-vos-ei um homem”. E assim é, de facto, caro leitor, face àquilo que experimentei ao acompanhar diariamente e de perto meus netos, desde a instrução primária (gosto mais desta designação) até entrarem nas respectivas Faculdades, conforme a vocação de cada um deles e, bem assim, o curso que se propuseram tirar. Excepcional e gratificante, posso dizê-lo, esta experiência!
Ou seja: aquilo que não me foi dado proporcionar a meus filhos (embora bem colocados, felizmente), devido às minhas por vezes prolongadas ausências no desempenho das minhas funções quando no activo (no Continente ou nas Ilhas), pude fazê-lo depois, em relação a meus netos, uma vez aposentado. Sensação maravilhosa, irrepetível, assistir mercê desse convívio ao desabrochar de uma criança até ela atingir a sua idade adulta!
O mais velho, de nome Nuno, (hoje no último ano de engenharia informática no Porto) revelou desde criança uma certa maneira de ser e de estar: brincava como as outras, mas tomava muito a sério os seus afazeres escolares. Desde a D. Pedro V, onde o ia buscar, vínhamos conversando sempre pelo caminho acerca das aulas, etc. Sempre atento às minhas palavras, compenetrado, houve um dia que saiu muito nervoso por não ter percebido bem aquilo que a professora dissera acerca de “uns ditados populares” ou coisa assim. Acalmei-o, dizendo-lhe que não se afligisse, que se tratava, esses ditos, de “aforismos”, “provérbios”ou adágios”como, por exemplo, “não guardes para amanhã aquilo que podes fazer hoje”, “guardado está o bocado para quem o há-de comer” e outros, como “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer”. Não te preocupes, Nuno, em casa vemos isso melhor. Ele, então, estacou, ali por alturas da Carlos Amarante, bateu com a ponta do guarda-chuva no passeio (era Inverno) e, olhando para mim muito sério, disse: “Ó avô, tu abres o livro na página 50 e sabes logo tudo”!
Sem comentários…




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