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Tempos modernos

Numa altura em que se aproxima o início da nova época e em que o país parece afundar-se enquanto os ratos abandonam o porão, as precárias condições económicas em que vivemos vão condicionar certamente a nova temporada. E não são só os clubes a terem de emagrecer orçamentos; serão também os adeptos. Mas, ao mesmo tempo que a nossa carteira emagrece, a de alguns vai “inchando” até atingir proporções que deixam a pensar qualquer um dos mortais. As injustiças em que este mundo está mergulhado são cada vez mais gritantes. E mais gritante é a hipocrisia revoltante e pérfida de tantos que apregoam a moralidade e a justiça, quando são eles próprios a dar exemplos de obsessão pelo poder e pela riqueza.

Manuel Cardoso
4 Jul 2013

São muitos os exemplos destas desigualdades e desta hipocrisia que tanto me revolta. Mas há dias tive conhecimento de um artigo publicado na conceituada revista Forbes que dava conta dos rendimentos dos dez desportistas mais bem pagos do mundo, no ano de dois mil e doze. Os números são absolutamente inacreditáveis. Num mundo em que há milhares de milhões de pessoas com rendimentos abaixo do limiar da pobreza, em que um país como Portugal, que está (mesmo assim) entre os cinquenta mais prósperos do mundo, tem cerca de um terço da população no limiar da pobreza, num mundo em que milhões de pessoas vivem com menos de um euro por dia, há um senhor que aufere 59,73 milhões de euros por ano, o que perfaz a inacreditável quantia de 163.643 euros por dia. Isto contando com sábados, domingos e feriados! Este senhor chama-se Tiger Woods e é praticante de golfe. Só por curiosidade diga-se que o futebolista mais bem pago do mundo é Cristiano Ronaldo, que aparece no nono lugar com pouco mais de 33 milhões anuais.
Estes números são revoltantes e levam-nos a pensar no que estamos realmente a fazer quando vamos ao futebol. Se bem que estejamos a usufruir de um espetáculo que eu considero fantástico, ao mesmo tempo, estamos a contribuir para o acumular das injustiças sociais. Mesmo no nosso meio continua a ser inacreditável como um futebolista de qualidade pouco mais que razoável exige vencimentos na ordem do milhão de euros por ano.
Vistas as coisas nesta perspetiva estamos perante um verdadeiro dilema moral: ficamos revoltados perante estas fortunas exorbitantes e, ao mesmo tempo, contribuímos decisivamente para elas. Continuamos a criticar as televisões e os jornais por não darem importância às modalidades amadoras onde os atletas quase pagam para praticar desporto (às vezes pagam mesmo) e nem por isso trocamos o joguinho de futebol por uma partida de andebol ou uma prova de atletismo. É claro: queremos pão o circo, como sempre. Desde que o pão esteja garantido, continuamos a alimentar os leões do circo, assistindo impávidos ao império do dinheiro, ao acumular de grandes fortunas, ao mesmo tempo que o próprio pão vai escasseando a muitos de nós.
Estamos em tempo de verão e, com todo este sol, talvez não nos faça bem pensar em coisas tão deprimentes. Mas talvez seja o momento para pensarmos seriamente na hipótese de mudarmos de atitude perante este mundo do desporto de alta competição, este circo em que as feras são cada vez em maior número…




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