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Da marginalização ao acolhimento

1 Um dos problemas que se colocam à ação pastoral da Igreja é a situação das pessoas cujo casamento religioso fracassou. Separadas ou divorciadas, uniram-se depois com uma outra pessoa. Penso haver dois extremos a evitar: o de as marginalizar e o de considerar a sua situação em tudo semelhante à dos casais que permanecem fiéis ao compromisso assumido em Igreja. É bom lembrar que a Igreja não marginaliza – ou não deve marginalizar – ninguém. Mas para comungar sacramentalmente há condições que todo o fiel, independentemente da situação em que se encontra e do estado de vida que tenha abraçado, deve satisfazer. 

Silva Araújo
4 Jul 2013

2. Com data de 1 de janeiro do ano em curso a Equipa Arquidiocesana de Pastoral da Família publicou um opúsculo em que transcreve uma carta do Cardeal Arcebispo de Milão, Dionigi Tettamanzi, aos casais em situação de separação, divórcio e nova união. Surge na sequência do VII Encontro Mundial das Famílias, realizado em Milão de 1 a 3 de junho do ano 2012.
Se alguém espera ver nesta carta novidades em relação à Doutrina da Igreja, desiluda-se. Se alguém desconhece tal Doutrina ou a não tem interpretado corretamente, a leitura deste opúsculo é, certamente, de muito interesse.
 
3. Começa o volume por transcrever a resposta dada por Bento XVI a um casal brasileiro, que o interpelou.
Afirma o hoje Papa Emérito: «quanto a estas pessoas (aos divorciados recasados) devemos dizer que a Igreja as ama, mas elas devem ver e sentir este amor. Considero grande tarefa duma paróquia, duma comunidade católica, fazer todo o possível para que elas sintam que são amadas, acolhidas, que não estão “fora”, apesar de não poderem receber a absolvição nem a Comunhão: devem ver que mesmo assim vivem plenamente na Igreja. Mesmo se não é possível a absolvição na Confissão, não deixa talvez de ser muito importante um contacto permanente com um sacerdote, com um diretor espiritual, para que possam ver que são acompanhadas, guiadas. Além disso, é muito importante também que sintam que a Eucaristia é verdadeira e participam nela se realmente entram em comunhão com o Corpo de Cristo. Mesmo sem a receção “corporal” do Sacramento, podemos estar, espiritualmente, unidos a Cristo no seu Corpo».
 
4. À semelhança do que disse Bento XVI, a carta do Cardeal Tettamanzi começa por salientar a atitude de compreensão que deve existir em relação às pessoas cujo casamento fracassou. E por levar os cristãos a perguntarem-se se fizeram quanto deviam por estar próximos dos casais com dificuldades: «Fizemos com eles um caminho de verdadeira preparação e de verdadeira compreensão do significado do pacto conjugal no qual se uniram reciprocamente? Acompanhámo-los com delicadeza e atenção no seu itinerário de casal e de família, antes e depois do matrimónio?».
Insiste em que continua a haver lugar na Igreja para os divorciados recasados. Pede-lhes que participem com fé na celebração eucarística, mesmo que não possam comungar. Assegura-lhes que a Igreja espera deles uma presença ativa e uma disponibilidade no serviço de quantos têm necessidade da sua ajuda.
 
5. Relativamente à comunhão eucarística escreve: «É sempre a partir do sentido da palavra do Senhor que deriva a indicação da Igreja em relação à impossibilidade de aceder à comunhão eucarística por parte dos esposos que vivem estavelmente uma segunda união»
E justifica:
«Porque na Eucaristia temos o sinal do amor esponsal indissolúvel de Cristo por nós; esse amor que vem objetivamente negado no “sinal contraditório” dos esposos que terminaram uma experiência matrimonial e vivem uma segunda união».
Acrescenta ainda: «a norma da Igreja não exprime um juízo sobre o valor afetivo e sobre a qualidade da relação que une os divorciados recasados».
(…) «É errado interpretar a norma que regula o acesso à comunhão eucarística, como se significasse que os cônjuges divorciados e recasados fossem excluídos de uma vida de fé e de caridade efetivamente vivida dentro da comunidade eclesial».
 
6. A situação das pessoas separadas ou divorciadas que não fizeram uma outra união é diferente:
«É claro que a norma que regula o acesso à comunhão eucarística não se refere aos cônjuges em crise ou simplesmente separados: segundo as devidas disposições espirituais, esses podem regularmente aproximar-se dos sacramentos da confissão e da comunhão eucarística.
O mesmo pode dizer-se também daqueles que tiveram de suportar injustamente o divórcio, mas consideram o matrimónio celebrado religiosamente como único na vida e a esse querem permanecer fiéis». 

7. É possível que a doutrina da Igreja nesta matéria nem sempre tenha sido devidamente interpretada e aplicada. É possível ter havido pessoas que tenham querido ser mais papistas do que o Papa. A essas não deixo de recomendar a leitura da carta do Cardeal Dionigi Tettamanzi.
Lembro ainda que, sobre este tema, pode ler-se o livro «Papa Francisco – conversas com Jorge Bergoglio», pag. 93-94.




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