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Avós em tempos de crise

Vivemos num país onde a Família, como célula base da sociedade, é claramente negligenciada. Escasseiam os apoios e incentivos à maternidade, à primeira infância, ao percurso escolar dos alunos mais carenciados e às famílias numerosas e desestruturadas. Por isso, diminui drasticamente a natalidade, aumentam o insucesso e abandono escolares, disparam a marginalidade, criminalidade e prostituição juvenil e a violência doméstica, o aborto, o divórcio, as uniões de facto e os casamentos homossexuais tornam-se um flagelo social.Caminhamos, assim, para um futuro de incertezas, desesperanças e frustrações.

Dinis Salgado
3 Jul 2013

É aqui, então, que entram os avós como pilares fundamentais da estabilidade, estruturação e funcionamento possíveis da instituição familiar. Por um lado, apoiando oa filhos na sua difícil função protetora e educadora e, por outro lado, substituindo-os, muitas vezes, quando as condições de vida os afastam temporária ou definitivamente do lar. E o que, hoje, frequentemente, acontece com o fenómeno migratório que aflige inúmeros casais jovens.
Todavia, confrontamo-nos com pouca ou nenhuma valorização e incentivo, por parte dos agentes decisores políticos, económicos e culturais, do papel dos avós na segurança que transmitem, no apoio que garantem, na serenidade que transportam e na sabedoria que agregam à família. E, mais grave ainda, do não reconhecimento e favorecimento de tamanha prestação social, como se esta não passasse, pura e simplesmente, de uma obrigação e consequência intergeracional e de consanguinidade.
Pois bem, quem já vestiu ou veste a pele de avô ou avó sabe o quanto de gratificante e nobilitante encerram as relações avós–netos. E, assim, seja no seu papel de avós formalistas, sempre disponíveis a ajudar quando solicitados, mas mantendo uma certa distância, que não indiferença, seja no de avós substitutos dos pais incapazes de assumir a sua paternidade, seja no de avós repositório de saberes – a tal biblioteca viva – estimulando, orientando, embalando, dando colo, acariciando e ajudando a crescer ou mesmo de avós pouco presentes por razões pessoais, profissionais ou institucionais, eles são, para exemplo de muitos governantes e políticos, autênticos avós-coragem, avós-heróis que o futuro consagrará.
E se os avós que aos netos contam histórias de encantar, os levam a passear pelos jardins, os ensinam a desvendar os segredos de plantar uma árvore; espreitar um ninho ou armar um alçapão aos pássaros, os amestram na arte de lançar o pião, saltar à corda, manufaturar uma mona ou disparar uma fisga, assim lhes transmitindo a força, a segurança, o engenho e liberdade de crescer, noutros tempos e nas famílias tradicionais, onde coabitaram as três gerações, foram a força tutelar e patriarcal, eles, hoje, mais atualidade, préstimo e fundamento têm.
E, mormente, para que não negligenciando o passado, preservando o presente e garantindo o futuro, continuemos a honrar esta Pátria, velha de mais de oito séculos, o que só se consegue com cidadãos responsáveis, autónomos, criativos e livres que os avós, em tempos de crise, mais ajudam a preparar.
Então, até de hoje a oito.   




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