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A ditadura está nas ruas

O povo revolta-se, no Brasil, em Espanha, no Egito, na Grécia, na Alemanha, na Turquia, mais aqui, mais além, de uma forma violenta e por vezes descontrolada, pilhando, incendiando, estilhaçando montras, enfrentando a autoridade, baleando e sendo baleado! Que se passa para que seja assim e assim tantos? No meu entender porque na rua expressa-se uma nova sociedade, uma sociedade composta de jovens que se não contenta em sobreviver como sobreviveram seus pais e avós. Exigem mais, muito mais porque são mais preparados que eles, menos resignados e, por isso, reivindicam um tratamento que os coloque no centro das preocupações económicas.

Paulo Fafe
1 Jul 2013

É o humanismo emergindo do direito à dignidade pessoal. Estão na rua sem serem convocados por ninguém. Estão lá para exigir e fazer refletir sobre uma nova ordem económica mundial, uma ordem que coloque o coração no lugar da caixa registadora. O povo revolta-se porque se sente esmagado a vários níveis: pela pouca seriedade dos políticos, pela falta de lisura da ação governativa, pelas leis do trabalho, este esmagado por um capitalismo selvagem que vai enriquecendo uns, enquanto outros vivem no limiar da pobreza, ou então  por um comunismo que faz do homem uma peça de um todo que não funciona em termos de individualidade. Esta sociedade que se revolta espera por uma nova ordem económica, qual messias que diz que por trás de cada empregado há uma dignidade presente. Olhemos a história que é a mestra da vida, e vejamos o que nos ensina: a revolução francesa que matou os reis, deu origem à ditadura de Napoleão; a revolução russa que matou os czares deu origem à ditadura dos bolcheviques, a revolução chinesa, que aboliu  os imperadores, deu origem à ditadura comunista de Mao Tsé-Tung, a revolução do 28 de Maio, em Portugal, deu origem à ditadura do estado novo e a revolução dos cravos por nada dava uma ditadura à Cunhal. E agora a reflexão: as revoluções nivelaram classes? Estabeleceram a igualdade de classes e a fraternidade entre eles? O proletariado deixou de se aburguesar? A 1.ª república portuguesa conseguiu aplicar a sua generosidade? É claro que não. As revoluções são como os tufões, varrem forte, escadraçam tudo, matam e derrubam personalidades, mas há sempre um depois, um regresso ao passado, um retorno em que tudo cheira a velho. A luta de hoje pode ser diferente, isto é, pode desembocar numa ditadura? Eis a incógnita e eis o desejo pessoal de que a história se não repita. Como isto é anseio de sempre, porque é miragem social e sonho de idealistas e ideologistas, é que não se pode olhar e ficar indiferente para os que se manifestam por maior justiça social. Eles sentem-se em desigualdade, diremos mesmo desumanizados ou até ostracizados pelo que tanto basta e é bastante para alimentar  todas as revoluções e todos os distúrbios; as vozes dos descontentamentos crescem e não se calam porque não se resignam; a resignação deixou de ser caminho e doutrina. Cuidado, pois, porque pode estar no mais oculto destes descontentamentos o fermento e o eclodir de uma ditadura. Um dia o povo cansa-se de tanta revolução e aceitará qualquer paz; basta que um  tribuno demagogo e inflamado apareça a prometer “ordem e progresso”; quando dermos fé temos no poder não um democrata mas um autocrata. E os povos adaptam-se, rápida e facilmente à paz de qualquer ditador. A história fala por si. Um exemplo muito próximo: vejo países, como Portugal, a Grécia a Irlanda, ajoelhados e agradecidos perante a ditadura económica alemã; se as nações se submetem assim tão facilmente, com a mesma facilidade fará o povo. As revoltas de rua podem ser abafadas pelos tiros de espingardas e canhões de água mas nunca vencidas porque não há repressão para a humilhação.




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