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Por um jornalismo de soluções

Há quem garanta que as “notícias positivas” são incapazes de fazer vender jornais. Os que o afirmam justificam dizendo que as pessoas, quer o confessem, quer não, preferem encontrar nos media um espectro noticioso que comece no pequeno drama e termine nas grandes tragédias. Pelo meio, devem abundar histórias, preferencialmente as que se mantinham no maior secretismo, que envolvam sexo e dinheiro e que façam apelo aos instintos primários e aos sentimentos adjacentes. E há mais um ou outro assunto que, por regra, também é susceptível de interessar os leitores, mas notícias e reportagens sobre o que funciona, isso é que não. Isso, dizem, ninguém compra.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
30 Jun 2013

Mas há quem não acredite nesta conversa. Não por ela ser inteiramente falsa, que, evidentemente, não é, mas, sobretudo, por se considerar, com razão, que ela ajuda a consolidar um modelo de jornalismo, conformista e fomentador do conformismo, instigador do medo e usufrutuário do sensacionalismo. Quem não se deixa ir nessas correntes prefere reflectir sobre a missão que, em cada momento, os media devem desempenhar para melhorar a vida em comum.

É preciso publicar notícias e reportagens que apresentem soluções concretas para problemas de âmbitos diversos – educativos, ambientais, sanitários e sociais, por exemplo –, diz a Sparknews, que se apresenta como uma comunidade internacional de jornalistas e empreendedores sociais. Dar a conhecer soluções permite sinalizar caminhos possíveis para superar dificuldades, muitas delas sentidas em vários cantos de planeta. Dar conta do que funciona pode, por isso, ser bastante inspirador e concorrer para que os cidadãos se associem e recuperem poderes que lhes pretendem constantemente subtrair.

Em França, o diário Libération publica de vez em quando uma edição intitulada Libération des solutions. Este jornal “das soluções” tem o mérito de apresentar o que está a ser construído fora da lógica de trituração do humano instigada pelo capitalismo selvagem, tantas vezes apresentado (mesmo por economistas de universidades católicas) como o estádio mais aperfeiçoado – e, portanto, definitivo – da civilização. E acrescente-se que, afinal, as “notícias positivas” podem vender, razão por que o primeiro número do Libération des solutions representou a melhor venda do ano, tal como observou Christian de Boisredon, um dos fundadores da Sparknews.

Na semana que finda, outro jornal parisiense, o Le Monde, publicou na edição datada de terça-feira um suplemento sobre o Dia do Jornalismo de Impacto, uma iniciativa promovida pela Sparknews, a que, além do diário francês, aderiram vinte e um jornais de vinte países de vários continentes. Entre eles, encontram-se, por exemplo, o italiano La Stampa, o alemão Die Tageszeitung, o dinamarquês Politiken, o polaco Gazeta Wyborcza, o brasileiro Folha de S. Paulo, o canadiano La Presse, o mexicano Excelsior, o argelino El Watan, o nigeriano The Nation, o senegalês Le Soleil, o indiano The Times of India e o paquistanês The News International.

Defendendo “a partilha de ‘boas práticas’, o entusiasmo sem ingenuidade, a objectividade e a benevolência, e a independência”, Sparknews defende o conceito de “jornalismo de impacto” ou mesmo de “jornalismo de duplo impacto”. O primeiro impacto ocorre quando os media denunciam as injustiças e as derivas. O segundo verifica-se quando os media mostram as soluções que existem para os problemas, fornecendo instrumentos para agir.

Organizado pela primeira vez, o Dia do Jornalismo de Impacto, segundo os promotores, pretende estimular a difusão de soluções que mudem o mundo, incentivar os leitores a disseminá-las, desenvolvendo assim um jornalismo positivo num período que se está a viver com enorme ansiedade. A Spark-
news está longe de querer ocultar os problemas da sociedade; o que deseja, sobretudo, é olhar para os desafios que se colocam e reparar nas respostas que já lhes estão ser dadas.

As experiências contadas por este jornalismo de soluções não têm como protagonistas os que, de um momento para o outro, começaram a ganhar imenso dinheiro e agora são invejados. Em vez de vencedores solitários, há uma apologia da acção colectiva. Dando voz aos “protagonistas da mudança”, tal como os designava a manchete do referido suplemento do Le Monde, para dar visibilidade aos bons efeitos da proximidade, da colaboração e da partilha, o jornalismo de soluções conta “histórias com sentido, no sentido da história”.




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