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Os dias difíceis e sem esperança que vivemos

Estamos num tempo de viragem de paradigmas. Assiste-se a uma decadência das instituições ao nível político, social, económico e até religioso. Ao nível político, os mecanismos de controlo democrático que foram dados ao povo são ineficazes. Que é que pode fazer com um voto de quatro em quatro anos? Não raro, as instituições de poder, em vez de servir, são usadas como forma de pressão sobre os mais fracos para satisfazer os interesses dos mais fortes. Portugal, como escreveu um jornal norte-americano, tornou-se um país sem vitalidade, sem crianças, sem investimento, sem emprego, sem esperança.

M. Ribeiro Fernandes
30 Jun 2013

O próprio conceito de democracia pode estrar em causa, porque os dinossauros dos interesses não permitem que as instituições se possam auto-regenerar: é o que está a acontecer, por exemplo, agora ao nível das autarquias, com os candidatos, a começar pelos do partido do Governo, já nem sequer respeitarem a lei que os inibe de se recandidatarem ao fim de três mandatos sucessivos, para dar lugar a novas opções de regeneração do poder. Politicamente, já ninguém acredita em ninguém, o que é um grande risco para a democracia.
1. Por outro lado, apesar de se continuar a exigir ao povo uma austeridade sem limites, há organizações que se comportam acima da regra comum. Veja-se, por exemplo, a Assembleia da República: em tempo de austeridade e de despedimentos frequentes, seria de esperar que dessem o exemplo de reduzir o número de deputados no máximo para 100 (a Austrália, que é do tamanho da Europa, tem apenas 100 deputados), mas os partidos nem querem ouvir falar disso. Já para não falar da exigência de nível cultural dos deputados que, com raras excepções, é confrangedor. Despedem-se funcionários públicos, mas nas instituições políticas não se toca. O Governo deu-
-lhe agora para fazer dos funcionários públicos e dos reformados o bode expiatório de todos os males económicos do país, sem qualquer objectivo para o país, como há quinhentos o Rei fez em relação aos judeus. Enquanto isto, a inúmera gente partidária que vive pendurada da política, no Governo central, autarquias e institutos, nessa não se toca.
Quanto aos reformados, que o Governo persegue, será legítimo cortar pensões legalmente adquiridas, condenando-os a uma vida de incerteza e de indigência, depois de tantos anos de trabalho e de descontos? Terá o Governo alguma coisa a dizer, por exemplo, sobre a reforma da Presidente da Assembleia da República, que se reformou aos 42 anos e que continua no activo como se nada fosse? Ela e tantos outros…
2. O país que ainda confia no PSD não lhe perdoará, quando for chamado a votar, se ele não encontrar rapidamente uma solução alternativa credível de governação do país. O mínimo que o País exige ao PSD é que se redima o mais depressa possível do erro da escolha que fizeram. Em democracia, tem de ser assim mesmo.
3. Ao nível social e económico, com o caminho que a austeridade e o desemprego estão a levar, as coisas estão a chegar a um limite de degradação que deixa o povo no limiar da revolta. Se o estado do país que o Governo herdou já vinha muito mal, pior ficou com a sua política curativa de um liberalismo radical de austeridade sem crescimento. A frágil estrutura económica rebentou com tanto imposto e austeridade. E, não obstante, ainda agora o Governo recusou as propostas do patronato para se apostar mais no crescimento e emprego, preferindo manter a política da austeridade sem crescimento, apesar da miséria ser hoje visível pelo país fora, com as estruturas de apoio social esgotadas e já sem meios para acudir a tanos pedidos de ajuda. O Governo está isolado dos patrões, dos sindicatos e do povo.
4. Na religião passa-se algo de semelhante à crise institucional geral. Não por falta de estruturas: estruturas de poder não faltam, a questão é saber se há vida dentro delas. Ainda assim, a diferença em relação à política e à economia, onde não se vê para onde caminham, na religião, apesar dos escândalos continuarem a rebentar nessas estruturas, já se começa a ver alguma esperança de renovação com a eleição do novo Papa Francisco, que quer mudar a face e a linguagem da Igreja, recusa a percepção tradicional de poder religioso, recusa as suas vestes de sedas vistosas e os seus cadeirões faustosos e prefere a simplicidade e a bondade. Para ele, o único ministério por onde a mensagem passa é o do serviço, da simplicidade, da bondade, da humildade. Não são as instituições que trazem esperança aos homens, é a bondade do coração. O receio é que o peso do aparelho de poder instalado nas estruturas religiosas seja tão forte que venha a abafar a voz do Papa Francisco.




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