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Jornais da Igreja, uma reflexão a propósito

Passam-me semanalmente pelas mãos muitos jornais ligados à Igreja. Diários, semanários, quinzenários ou mensários. Também me chegam algumas revistas de várias origens. Folheio sempre com atenção e respeito, leio, de fio a pavio, artigos ou notícias que me suscitam maior interesse e faço o meu juízo sobre esta abundância de escritos, os seus conteúdos, modo de apresentação e lugar da sua publicação. A imprensa da Igreja tem o seu público próprio. Com frequência, é, também, folheada e lida por gente que frequenta pouco ou nada o templo, tanto onde ela se publica e chega até à mesa do café, como a terras distantes de emigrantes.

D. António Marcelino
30 Jun 2013

Significa um esforço grande, humano e económico, das instituições a que estão ligadas estas publicações. Os jornais são servidos em grande parte, para além dos poucos jornalistas credenciados, por generosos voluntários que lhes dão, com algum saber e alguns conteúdos atualizados e mordentes, a vontade de serem prestáveis e úteis.
Quer queiram, quer não, as publicações ligadas à Igreja mostram sempre o rosto da Igreja, o sentido das suas preocupações, o modo como ela se situa na sociedade e qual a sensibilidade aos seus problemas. Verificamos que há jornais quase exclusivamente voltados para o interior da comunidade eclesial; jornais de cariz regionalista, cheios de notícias de interesse local, que apenas dedicam uma página ou poucas notícias às atividades religiosas; jornais que, para além das informações sobre acontecimentos da Igreja e suas comunidades, procuram estar presentes, com reflexão cuidada, às realidades sociais e aos problemas do meio. A tendência maior destas publicações é ainda mais voltada para os aspetos religiosos e para o interior do templo que para os problemas sociais que afetam a vida das pessoas, das famílias e da sociedade em geral.
Cada responsável deseja que o seu jornal esteja ao serviço da comunidade concreta, para informar e formar, para ajudar e estimular, para abrir horizontes e gerar compromissos, para dar conta da vida da Igreja local. Este objetivo comporta opções, nem sempre fáceis de realizar, pela interferência de gostos dos leitores a atingir e a segurar, pela capacidade e horizontes de quem faz o jornal, pelo clima eclesial dominante nas comunidades, diocesanas e paroquiais, pela carência de colaboradores capazes de refletir os problemas sociais que desafiam a Igreja, pelas limitações económicas e, certamente, por tantas outras razões, sentidas em concreto por cada jornal.
É indispensável, por certo, que os jornais da Igreja deem espaço à informação do que se passa dentro dos seus muros. Assim se pode mostrar que a Igreja não está adormecida e dá atenção a novas formas de serviço pastoral. Mas, ao ficar por aí, a imagem da Igreja fica sempre limitada ao que é diretamente religioso e vista a passar ao lado ou fora da vida e problemas que afetam cada dia o viver de muita gente.
A Igreja conciliar empurra para o diálogo efetivo com o mundo, suas realidades e problemas, até à leitura, atempada e comprometida, dos sinais dos tempos, feita à luz da mensagem evangélica. Esta atenção mostrará o rosto verdadeiro e completo da Igreja e das suas preocupações e propostas. A porta da Igreja está aberta para todos. Entrar ou não também depende do interesse que se suscita em quem lhe passa à porta e nos que, habitualmente, andam na rua indiferentes ao templo e ao badalar do sino da torre, queixando-
-se, por vezes, pelo incómodo não cuidado dos decibéis.
Os problemas sociais, políticos ou profissionais, culturais ou de lazer, geradores de injustiças ou camuflados por interesses, estão na praça pública. Raramente nos jornais da Igreja há sobre eles um olhar e uma palavra diferente que projete luz e esperança.
As publicações da Igreja situam-se na linha da missão evangelizadora, e esta não se reduz apenas ao religioso. É anúncio à dignificação da pessoa. Fomentar o dinamismo da comunidade cristã e seus membros só tem sentido para os pôr fora de portas, apaixonados pela urgência do Evangelho e construção de uma sociedade justa e fraterna, a caminho das periferias, como recomendou o Papa Francisco. Olhar só para dentro, ou principalmente para dentro, é atrofiar o olhar do coração e neutralizar responsabilidades.




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