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Terrorismo puro

Imagine-se que, algum tempo após os atentados terroristas de 11 de Setembro, os seus perpetradores viessem admitir, depois de todo o mal causado, terem cometido graves erros na planificação de tão terrífico ato e terem subestimado os efeitos terríveis que este poderia originar. “Não prevíamos que o embate dos aviões nas Torres Gémeas pudesse ter um impacto daqueles”, justificariam os terroristas. Contudo, apesar desse mea culpa oco, os mesmos terroristas voltariam, mais tarde, a cometer semelhante atentado, desta vez nuns prédios mais ao lado, repetindo o terror que, tão previsivelmente como no primeiro atentado, era certo acontecer.

Paulo Rodrigues
29 Jun 2013

Este exercício de imaginação, digno de um qualquer argumento hollywoodesco (ainda que, na base, parta de um acontecimento verídico), encontra paralelo num acontecimento recente, com contornos idênticos e igualmente baseado num atentado terrorista real: recentemente, o FMI admitiu ter cometido erros grosseiros nas avaliações do primeiro pacote de resgate para a Grécia, semeando a austeridade a doses incomportáveis e obrigando aquele país a uma colheita abundante de terror e de vidas destruídas. Apesar disso, o mesmo FMI, tão arrependido e consciente dos seus erros em terras helénicas, não se coibiu de vir instalar-se num outro país mais ao lado – o nosso – e obrigá-lo a aplicar exatamente a mesma receita de terror: a austeridade cega, implacável e devastadora.
Perante o martírio e o terror que estes dois países intervencionados pelo FMI atravessam, será excessivo estar a classificar como atentados terroristas o que se tem passado? A resposta é óbvia. Contudo, seria redutor elencar apenas o Fundo Monetário Internacional como único agente terrorista em todo este processo. Para que a receita de terror (insisto na palavra) resulte, é necessário quem pactue com a mesma, tornando-se cúmplice na barbárie. Neste aspeto, o Governo português tem assumido esse papel na perfeição, por vezes demonstrando requintes de malvadez ao implementar ainda mais austeridade do que a que foi ditada para o país. E, como um bom aluno que gosta de ser, vem imitar o mestre na admissão de erros das suas previsões, sem que isso sirva de lição para evitar que estes se repitam. Pelo contrário, intensifica-os.
Portugal e Grécia surgem, pois, como uma espécie de Torres Gémeas, com os seus défices de arranhar céus a tornarem-nos alvos fáceis e apetecíveis de qualquer terrorista disfarçado de resgatador. A austeridade a que foram obrigados já os atingiu com a força destruidora de um Boeing, carregado de combustível, pronto a inflamar qualquer esperança de sobrevivência. Desde então, a agonia tem sido lenta e dolorosa e o destino, tanto de um país como do outro, parece ser cada vez mais evidente. Se nada for mudado, só resta mesmo saber qual destas torres colapsará primeiro.




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