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Polvos sem povo

Quem é minimamente conhecedor da história ou quem vai estando atento às notícias que a partir da segunda metade do século passado são transmitidas durante todas as horas do dia, sabe que há povos, existiram nações que tiveram grandes homens, grandes cérebros. Podíamos citar algumas dezenas deles, que foram como deuses: inteligentes, dedicados, honestos, sofredores pelo povo, políticos ou estadistas que deixaram rastos e que a história jamais os apagará das suas páginas. Outros existiram, outros existem que são a antítese das virtudes daqueles.

Artur Soares
28 Jun 2013

Portugal também teve homens de valor: persistentes, empenhados, concretizadores de sonhos e de nobres ideais até ao século XVII, que muito deram ao mundo e ao país! A partir de então, procurou-se “viver de rendimentos” e hoje somos banalidade: temos a pressa do caracol, os sonhos ou os feitos do jumento com talas, a esperteza dos semianalfabetos e a preocupação constante de carregar o saco às costas, amparados pela bengala da desgraça. Há grande crise de competências!
Há dicionários que são bons mestres. E a propósito de competências ou de homens valiosos, vejamos o que diz o meu: “o vocábulo “maestro” vem do latim “magister” e este, por sua vez de “magis”, isto é, “mais” ou “mais que”. Assim na Roma antiga “magister” era o que estava acima de todos em sabedoria e habilitações, daí serem os grandes chefes em afazeres de grande responsabilidade. Já o vocábulo “ministro”, vem do latim “minister”, “minus” que significa “menos” ou “menos que”. Desse modo, também na antiga Roma, “minister”, ministro, era o servente ou subordinado que somente tinha alguma habilidade ou era um homem prático.
Pelo que se vê, o latim consegue explicar por que razão o mundo pode ser governado por serventes, habilidosos ou jeitosos.
Portugal, nas afirmações de Eça de Queiroz, em 1867, In “O distrito de Évora”, já se lamentava, já sentia na pele a existência dos nossos “minus” ao afirmar:
“Os ministros são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o Estadista. É assim que há tempos em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha. Será possível conservar a sua independência?”
É de salientar, assim, que Eça de Queiroz fez e testemunhou esta análise há cerca de cento e cinquenta anos! Perante tal verdade, perguntaria o escritor, “que fazer? Que esperar?”
Repare-se que há mais de cem anos o crédito é-nos rigorosamente tabelado, negociado, bem pago, bem sugado e sem respeito algum como povo. Olham-nos por cima dos ombros e só por dó vão deixando cair algumas migalhas abaixo da mesa.
O Estado está, tem estado sem cheta. Homens de verga, patriotas, prontos a servir o país, não como “minus” mas como “magis”, não há. Ou se alguns há, esquivam-se da política para não serem enlameados ou são colocados na sombra pelos vícios ou pelos cancros dos partidos políticos.
Não é por acaso que vamos tragando já a quarta República, após 1910; não existe por acaso a onda de incompetência, que teima em não nos largar dentro da Assembleia da República, nas repartições de políticos por nomeação, nas chefias que não sabem governar, nos “especialistas” com vinte anos de idade que emagreçam os cofres do Estado, nos débeis e impreparados juízes que pasmam a vida e os processos nos tribunais, etc. Nada é por acaso e, ganância e ignorância política são culpadas.
Ainda há dias atrás, informava um jornal diário, uma senhora de 65 anos que era empregada de limpeza no Ministério da Agricultura, foi colocada nas piscinas municipais de Castro Verde como salva-vidas e sem saber nadar. Ora tal situação, tal nomeação, corresponde ao descalabro em que o país se encontra, bem como à anarquia ou ao principio do “salve-se quem poder”.
Portugal, principalmente nestes primeiros anos do século que corre, tem sido uma coutada de polvos sem povo, onde as minorias organizadas impõem estranha democracia, porque há toda uma vivência contra as maiorias desorganizadas. A isto chama-se ditadura sem necessidade de explicar a cor.
Deste modo e a ser assim, se o povo não está na política… toda a política é contra o povo. Ora Polvos sem Povo a participar e a fiscalizar, é criar açougues ou manicómios.




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