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Exames nacionais de biologia geologia, porquê assim?

Este ano como o ano passado, o ano passado como há dois anos… e assim regressivamente até há cerca de uma década atrás. Analisemos rapidamente a prova:– O primeiro grupo até está muito bem, o texto é curto e claro, a imagem é nítida e agradável e as legendas são fáceis de interpretar; nas perguntas, que agora se chamam itens, há objectividade e clareza, quer nas de opção, quer nas antigamente chamadas abertas, a que agora se chama itens de construção, estas também muito bem formuladas, curtas, claras e precisas, sendo que, na última, se fornecem previamente alguns dados necessários, de modo conciso e muito adequado;

João Baptista da Ascensão
28 Jun 2013

– O diabo chega no segundo grupo: texto longo sobre experiências realizadas na década de sessenta do século passado relativas à replicação de DNA e à regulação do ciclo mitótico (de divisão) celular. O conteúdo e objectivos do texto não são propriamente fáceis de integrar momentaneamente nem para os professores quanto mais para a generalidade dos alunos. A acompanhar um texto assim dois gráficos: o primeiro bem, o segundo mal; este inclui cinco (!) funções (a que vulgarmente chamamos “curvas”) e, lá pelo meio, há duas coladas entre si à maneira de dois esses abertos (SS) que tivessem sido puxados e deformados pelos extremos e um pouco tombados para a direita. Ora a distância entre estas duas “linhas”, que é, em quase toda a sua dimensão, de cerca de um milímetro, é fundamental para se perceber que os acontecimentos que a da esquerda ilustra têm lugar antes dos que se verificam na curva a ela “colada” pela direita. Ou seja: a quem olha para um gráfico assim, para mais havendo mais três outras funções no mesmo sistema de eixos, a ideia que primeiro lhe pode ocorrer é que as duas funções são pouco menos que… “coincidentes”. Não é assim, mas que pode parecer, lá isso pode… Sendo (mais) claro: em minha opinião, um tal gráfico é daqueles que parece ser tão pouco convincente que nada se perderia se ninguém jamais o retirasse da obscuridade, quanto mais escolhê-lo para um exame! Naturalmente, com um introito nestes moldes, os alunos ficam sem perceber o que pretendem algumas das perguntas relacionadas, até porque os mecanismos da divisão celular merecem, quando abordados nas aulas, apenas a relevância que o programa da disciplina recomenda, o qual, neste caso, não só é omisso sobre a “indução da replicação do DNA” (exigida nos critérios de classificação), como ainda manda explicitamente “evitar o estudo pormenorizado dos processos de replicação, transcrição e tradução” (ver página 5 do programa de biologia do 11.º ano, 1.º ponto da antepenúltima coluna, que é a coluna das coisas a “evitar”). Por outro lado, estas experiências, se tivessem demonstrado algo de fundamental já se havia de ter notado nos mais de quarenta anos que decorreram desde a sua realização… Mas o que mal começou terminou bem: nas duas últimas questões deste grupo a prova volta à normalidade desejável – essas perguntas estão bem feitas;
No terceiro grupo, o que poderia ser um conjunto de questões muito interessantes sobre aspectos geológicos relevantes do país, fica prejudicado por um texto em que se devia afirmar claramente que os mármores de Estremoz resultam de processos geológicos (chamados) de metamorfismo regional. Era fácil de fazer e os alunos que estudaram a matéria e sabiam alguma coisa sobre o assunto não ficavam “às aranhas”. Na realidade, porque os programas são extensos e variados (a disciplina é bienal e abarca biologia e geologia), o mármore é normalmente referido nas aulas como consequência típica de metamorfismo de contacto. E como é preciso avançar, avançar sempre, muitos terão sido os alunos a quem este “berbicacho” estragou os objectivos… Sem necessidade;
– O último grupo de questões, incidindo (novamente) sobre biologia, era fácil e algumas questões havia bastante óbvias… mas só para quem tivesse cumprido o dever de bem preparar a matéria.
Implicações: O exame tem partes que estão para além do espírito e da letra dos programas da disciplina. E se é verdade que os programas, mormente o de biologia de 10.º ano, não facilitam a vida dos professores nem a dos alunos, convém que quem elabora as provas os tenha sempre presentes e não inclua nelas questões sobre assuntos que não é provável ou mesmo possível abordar nas aulas.
Para usar a terminologia do ministério da educação convém harmonizar os instrumentos de avaliação do que se aprendeu (os exames) com o que foi (efectivamente) objecto de estudo (os programas). Só assim os professores conseguirão desenvolver uma ação (ensinar os alunos) de modo a que eles não se sintam defraudados.
Conclusão: Há portanto encarregados de educação e alunos defraudados e professores (repetidamente) frustrados por culpas que não lhes cabem, sendo que há muito tempo é tempo de fazer “bater a bota com a perdigota”.
Importam-se de ouvir (ou de partir…), senhores fazedores de provas?




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