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Ter poder e exercer o poder

Não basta ter poder. Necessário é saber exercer o poder que se tem. E isto – o exercício correto e humano do poder – é coisa que nem sempre se vê. Mesmo em pessoas que, pelas funções que exercem e pela formação recebida, deveriam agir de outra maneira. Com mais correção. Com mais respeito pelos outros. Facilmente se confunde autoridade com autoritarismo. E isso leva a que os outros sejam tratados mais como objetos do que como seres humanos. A que as ordens deixem de ser verdadeiras ordens para serem ditatoriais imposições, nem sempre originadas pelos motivos mais nobres.

Silva Araújo
27 Jun 2013

Uma péssima forma de exercer o poder consiste em afirmar: isto tem de ser assim porque quem manda sou eu e é assim que quero que se faça. É a desaconselhável teoria do eu posso, eu quero, eu mando, que não raro conduz ao abuso do poder.
 
O exercício do poder não deveria andar afastado da prática do verdadeiro diálogo. E sublinho o qualificativo verdadeiro porque prolifera o falso diálogo, exercido mais como o direito de falar do que como o dever de ouvir. Falso diálogo a que se recorre como a uma habilidosa forma de impor pessoais pontos de vista, por vezes mais que discutíveis.
Quem tem o dever de obedecer não é um autómato nem como tal deve ser tratado. Quem obedece também tem o direito de saber porque é que determinada ordem lhe é dada. Quais os objetivos que com ela se pretende atingir.
Quem tem o dever de obedecer também tem o direito de poder fazer perguntas, de poder fazer observações, de poder apresentar os seus pontos de vista, de poder sugerir soluções alternativas para o problema  em causa. Não lhe compete decidir, mas pode contribuir para que se decida melhor.
É esta uma das exigências do bem comum a que nem sempre se atende. Mas estou persuadido de que deixariam de se dar certas ordens se quem tem o poder ouvisse, primeiro, a opinião de quem as vai executar. Há ordens ditadas pela sabedoria dos livros que manifestam a mais crassa ignorância da realidade dos factos. Não há como, antes de decidir, ouvir o parecer de quem está no terreno.
 
A pressa em decidir é, muitas vezes, má conselheira. Pressa e precipitação imprudente andam muitas vezes de mãos dadas. Se tivesse havido mais calma, se se tivesse consultado o travesseiro, se houvesse a humildade suficiente para ouvir quem podia ser ouvido é muito possível que certas decisões não tivessem ultrapassado o domínio das meras intenções.
 
Falei em humildade. É uma virtude que nem sempre casa com certas formas de exercício do poder. Nem sempre o poder é assumido como uma forma de servir. Utiliza-se mais como ensejo para se promover e se exibir. Para ser servido e bajulado.
Acontece de haver pessoas que se endeusam quando são investidas em autoridade. Julgam-se superiores aos outros. Julgam-se os únicos seres pensantes. Arvoram-se em detentores únicos da verdade. Consideram desprestígio ouvir os subordinados. Todavia, nada enobrece mais as pessoas do que a consciência das suas limitações e da necessidade de saberem pedir conselho e de ouvir as opiniões dos que as podem ajudar a decidir melhor. Mas o tal endeusamento a que leva o poder mal entendido impede-as de tomarem consciência das tais limitações. A pressa de decidirem leva-as a considerarem perda de tempo escutarem o parecer dos que lhes estão abaixo.
 
Estou persuadido de que todos lucramos se os de cima souberem ouvir os de baixo.
Há circunstâncias em que a única forma de subir proficuamente na vida é a que resulta de ter a coragem de saber descer.
Uma coisa é exercer o poder vendo nos outros pedras de xadrez e outra, exercê-lo tratando os outros como seres humanos.




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