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Mestres da ilusão

É através da centelha vital da chama do nosso pensamento que, em boa verdade, não nos podemos mostrar indiferentes ao autêntico espectáculo circense em que se vai transformando o nosso país. E é pela aragem sentida com o passar da carruagem, da política nacional, que os portugueses têm visto surgir os “trapezistas”, “malabaristas”, “contorcionistas” e até “histriões”. Todos têm chegado à ribalta dos palcos do poder para, com espectáculo, demonstrarem as suas habilidades de verdadeiros artistões.

Narciso Mendes
27 Jun 2013

Porém, os que, misteriosamente, mais nos conseguem impressionar são aqueles que, por entre poeiras astrais da sua função, conseguem operar, com mestria, uma verdadeira transformação do ouro em betão e da prata em alcatrão, bem como a democracia em arbitrariedades. E vem sendo como brilhantes magos da partidarite nacional, de camisa de colarinho branco e consciência mais negra do que as pedras de carvão, que se apresentam nas “festas hipnóticas” das campanhas eleitorais. Para isso trazem, “ao tiracolo da sua mediocridade”, a demagogia e as promessas com que irão procurar, mais uma vez, representar a farsa do seu patriotismo.
São discípulos de uma velha casta política, estes que agora nos governam e os que a nossa vista alcança, para exercerem o poder.  Percursores daqueles que, um dia, nos prometeram, sob uma espécie de hipnose colectiva, o tesouro da prosperidade e o caminho para a felicidade. E foi já nesta Europa em união que, ao acordarmos desse efeito letárgico, nos vimos sem os velhos escudos da nossa identidade nacional nas nossa algibeiras onde, em vez deles, encontramos os luzidios e enganosos, mas menos rentáveis euros. Razões pelas quais surgem, agora, muitas dúvidas e vários enganos na governação do país.
Uma chuva de ilusões, se constituiu aquela vinda de fundos estruturais europeus que, às mãos dos nossos europeístas, num ápice, foram usados sem ciência nem arte, durante mais de duas décadas, de que hoje apenas se mostram vestígios de uma quimera. E foi como melros e cotovias, mas com postura de cigarras, que acabamos mergulhados na tormenta da dívida e do défice. E agora, amarrados que fomos à austeridade para sairmos desta crise, o que vemos? As recessões económicas e o PIB a crescer nos bolsos de uns quantos.
Apesar disso, continuamos a ver que no “espectáculo da ilusão” do país, muitos outros jogos, malabares, se estendem também ao mundo autárquico. Mas é, precisamente, no nosso municipalismo que muitos pequenos, mas mágicos negócios, reunidos num só, se transformam numa colossal fortuna, que só com o vómito dos documentos comprometedores, engolidos por alguns dos nossos autarcas, se conseguiria fazer uma real avaliação da corrupção que nos afecta.
 Portanto, faria todo o sentido que fosse reformulada a Lei de limitação dos mandatos autárquicos para, sem ilusionismos perversos, impedir que estes Presidentes se eternizem, como “saltimbancos”, nas Câmaras Municipais do país. Será que não basta já o exemplo daqueles autarcas que, de “tão velhos quanto a Sé de Braga”, se gabam de, em apenas quatro décadas, terem feito muito pelas suas cidades? O que dizer então de um antigo governante brasileiro que construiu, de raiz,  a actual capital do Brasil nuns, para ele, longos, seis anos?
Quando, em qualquer que seja a cidade, verdejantes parques são abandonados e o poder instituído se volta para as suas velhas casas, convertidas em transacções de valor acrescentado para os seus, desmoronando-se as paredes que sustentam a confiança entre eleitos e eleitores, algo vai mal no regime. Mas cuidado senhores “mestres da ilusão”! O povo começa a despertar para o sentido pelo qual as suas finanças e as da sua pátria estão exauridas. E os sinais chegam-nos de algumas cidades do mundo, onde a indignação popular se levanta contra este circo. Desiludam-se, pois, os futuros candidatos à governações do país e das autarquias, porque o rastilho do descontentamento está aceso. E pode alastrar-se.




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