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O balanço do segundo ano com eleições no horizonte

A reunião extraordinária do Governo de sábado passado não foi para comemorar. A do início do mês também não. Para comemorar era preciso um motivo importante, um feito extraordinário. Não houve nada disso. As velas ficaram por acender de novo. Faltou mesmo o motivo. E a culpa não foi nossa. Passos Coelho não tem nada para festejar. Não acho que quisesse celebrar a subida do desemprego para níveis nunca antes atingidos em Portugal (pouco falta para chegar aos 20%) ou o recorde do crescimento da dívida pública (na ordem dos 127% do PIB). Ou então o consumo interno que cai mês após mês (entre 2010 e 2013 já quebrou 14%) e o investimento que baixou imenso (foram cerca de 40% no mesmo período).

Luís Martins
25 Jun 2013

Seria uma ignomínia. Não, isso não pode ter sido. O Governo pode não ser democrático, no sentido de não estar a representar o povo que o elegeu, mas isso seria de mais. Só alguém muito perverso podia comemorar tais feitos, que são reais, contudo. Mais certo é que o Governo tenha aproveitado para fazer alguma auto-crítica, precaver a sua sobrevivência e procurar fazer algo para não sair de cena tão mal visto. A verdade é que o calendário aperta. Por isso, as certezas de ontem já não serem as de hoje. Talvez já ninguém se queira marimbar para as eleições. Nem mesmo Passos Coelho.
As certezas de que o caminho para o crescimento passava pelo corte de salários e por muitos impostos, não se coadunam agora com o calendário eleitoral e o novo discurso, a solo, a duo ou em pequeno coro, é de que certo, certo, a retoma só chegará com os salários a crescer e os impostos a baixar. Confusos com a mudança de discurso? Há eleições no horizonte. Mas, atenção, não nos esqueçamos dos quatro mil e tal mil milhões de euros que o Governo se prepara ainda para cortar no próximo orçamento, uma boa parte à custa do emprego público e dos pensionistas.
Bom, mais vale tarde do que nunca. Mas vai ser difícil. Talvez, até já seja tarde. Para o Governo, seguramente. Seria preciso que ainda tivéssemos confiança no Executivo, o que já não temos. E que acreditássemos na bondade das suas medidas, que será quase impossível. Quem mente uma vez, mente sempre, e mesmo que diga a verdade, todos lhe dizem que mente. Já assim diz o povo há muito.
No entanto, Portugal não vai crescer apenas com intenções. Nenhuma economia consegue sobreviver se não houver mercado interno e confiança. O primeiro, sabemos por experiência, anda nas ruas da amargura: consumo negativo há inúmeros trimestres, muitos espaços fechados e outros prestes a fechar, filas enormes à porta dos centros de emprego, muitos processos de falência a correr termos nos tribunais portugueses. Quanto à confiança, depois que nos faltaram à palavra, não há nada que a mantenha, sobretudo, depois de vermos o Governo apenas sedento em tornar mais difíceis os dias dos portugueses. Pelo menos, parece. Pessoalmente, cheguei a acreditar no actual Governo e o caro leitor também ou pelo menos deu-lhe o benefício da dúvida. Só que há limites. Não somos de ferro. Há limites, insisto. Também temos o direito de desenhar o nosso. Fazê-lo, não é direito exclusivo de apenas alguns poucos. 
Não há razão para foguetes. Nem tanto porque os tempos são de contenção, mas porque, de facto, não há motivos para isso. Pelo menos, no que toca ao país. Tal não impede que andem agora uns quantos a planear comprar-nos o voto, dizendo que, finalmente, há condições para baixar os impostos. Eis o “tira e dá” cíclicos com que os políticos ganham a sua vida e nos manipulam!
O CDS vai marcar a agenda política. Aliás, já começou com as rebeldias ao longo da legislatura. Passos Coelho está a deixar nas mãos de Paulo Portas as flores. Despretensioso ou irresponsável (?), não quer nada, mas deixa-nos a nós os espinhos. Resta-nos atenção e pragmatismo. Depois das certezas de Passos Coe-lho, agora as nossas. Não nos deixarmos iludir de novo. Pode faltar ainda algum tempo, mas convém pensarmos nisso.




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