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A língua em crise?

Sob o tema “O valor económico da língua portuguesa”, juntou o Observatório da Língua Portuguesa alguns comentadores com o objetivo de analisarem a situação atual da nossa língua em Portugal, no amplo espaço lusófono e no mundo. Relevaram-se algumas informações, de conhecimento mais ou menos comum, de entre as quais sobressaem o facto de sermos, neste momento, mais de 250 milhões a falar a nossa bela língua, bem como o facto de o movimento migratório se processar para países com a mesma base linguística, ou muito próxima (caso das ex-colónias, do castelhano ou do francês). No essencial, percebe-se que a migração feita desta forma tem motivação económica, a qual, por circunstâncias diversas, espoleta consequências políticas.

José Moreira da Silva
25 Jun 2013

Uma abordagem interessante a esta problemática poderia tocar os seguintes pontos: a) há uma crise generalizada das línguas?; b) é pertinente problematizar uma pretensa crise linguística no imo do turbilhão económico-financeiro que desfigura a Europa?; ou, dada esta circunstância, é necessário repensar a função das línguas pondo-as ao serviço de um objectivo político mais alto?
Que há, a nível intranacional, crises linguísticas, é uma evidência. Em Portugal e na lusofonia, discute-se um Acordo Ortográfico apresentado à comunidade sob a perspetiva económica. Em Espanha e nos países castelhanizados, problematizam-se fatores sistémicos, aos quais se acrescenta a variedade de línguas oficiais ou de dialetos (galego, catalão, vasconço e o que se entende como dialetos variados da América Latina…). Em França e nos países francófonos, lamenta-se o desprestígio crescente de uma língua outrora pujante, matriz cultural insofismável, mas cujo declínio se simboliza em todas as Alliances Françaises desaparecidas. Nos países da Commonwealth, vocifera-se contra a miscigenação linguística, dado o estatuto entretanto alcançado pelo inglês a nível mundial. Na Alemanha, a distância entre o falado e o escrito parece perturbar os entendidos. A mesma perturbação na Dinamarca, na Noruega ou na República Checa. O serbocroata, língua de sérvios, de croatas e de montenegrinos, porta o germe da heterogeneidade que, de linguística, facilmente cristaliza em política. Enfim, numa época de projeção para o unívoco, a extraordinária teia linguística europeia entrança-se em crises diversas, intra ou extralinguísticas, sem solução evidente à vista.
No âmbito do ideário europeu, comunitário, federalista, a ideia de uma unificação linguística afigura-se luminosa, embora aparentemente mergulhada no lago da utopia. Poderá ser o inglês a língua-franca europeia, e porque não mundial? É verdade que, ao longo da história, algumas línguas se impuseram às outras, mas a base de imposição sempre foi de ordem económica. Veja-se o caso do português que, em séculos passados e em função do império, se impôs com tal estatuto. Estará o inglês na mesma condição? O facto de a Inglaterra se sentar à margem da discussão europeia sobre aspetos relevantes para o continente não retirará vigor a um ideal linguístico defendido por muitos críticos? Por outro lado, estará a globalização a formatar culturas e formas de pensamento que conduzem à aceitação inquestionada de uma língua–franca como o inglês em detrimento das línguas nacionais? Em Portugal, são vários os exemplos daquilo que alguns apelidam de subserviência: em várias universidades, há cadeiras lecionadas em inglês, teses escritas e eventualmente defendidas em inglês, sob o argumento utilitarista da divulgação universal. Para evitar a crítica e o dissídio, porque não aprofundar o estudo do esperanto, língua artificial, igualando a abordagem, equilibrando emoções e anulando querelas culturais?
O ideal de uma língua capaz de servir o objetivo um país-uma língua (em que um país corresponderia à Europa e uma língua corresponderia, por exemplo, ao inglês) esboroa-se no confronto com a realidade, que vê sublimados, de uma forma ou de outra, os fatores emocionais de fundo nacionalista: todas as nações se fundam na ideia de que a minha pátria é a minha língua, sem a qual, pensarão, serão engolidos pelo furacão globalizador.
Conscientes destes factos e no âmago de diversas crises, em que se releva a económica e financeira, comunidades e instituições apontam o caminho da diversidade. Saber inglês é importante, mas mais importante é saber pensar na língua materna. A forma como organizamos o mundo, como o vemos e sentimos, depende fundamentalmente da forma como usamos a faculdade da linguagem, da forma como falamos e como dominamos os códigos da escrita. O fluxo migratório obriga-nos a conhecer línguas, se quisermos vencer num mundo em convulsão. Saber inglês é bom, mas também é bom saber francês, se for França o destino da nossa emigração. Ou castelhano. Ou alemão. Ou mandarim. E é nesta diversidade de conhecimento que a integração se realiza, deixando evidentes as marcas culturais do nosso povo.
Em chinês, crise significa perigo e oportunidade. As línguas, as economias, as sociedades, estão em crise, isto é, em perigo permanente. Mas as crises potenciam oportunidades. No âmbito linguístico, oportunidade para pensarmos a nossa língua, para a revisitarmos, para a elevarmos como símbolo de povos extraor-
dinários. E oportunidade para a mostrarmos aos outros povos na beleza das suas representações orais, escritas, literárias. Pelo mundo fora, o português renasce como sistema importante, sendo cada vez mais estudado na América do Norte e do Sul, na Ásia, em Africa. Na Europa, começa a ganhar a dianteira da visibilidade ao francês e ao alemão. Decisões discutíveis, como são as relativas ao Acordo Ortográfico, não devem obnubilar tal importância. Pelo contrário, devem apresentar-se como motivadoras para uma pujança que desejamos permanente.




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