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Guimarães e Batalha de S. Mamede

Os vimaranenses comemoram hoje, dia 24, mais um aniversário da Batalha de S. Mamede. A Crónica dos Godos (Chronica Gothorum), apologética dos feitos do nosso primeiro monarca e muito próxima dos acontecimentos, diz-nos a data e local da Batalha, bem como a captura do inimigo: “na era de 1166 (ano de 1128 da era cristã): no mês de Junho, festa de S. João Baptista, o ínclito infante Afonso, filho do Conde Henrique e da rainha dona Teresa (…) travou com eles (…) indignos e estrangeiros da nação combate no Campo de S. Mamede, próximo do castelo de Guimarães, venceu-os e prendeu-os na sua fuga”.

Narciso Machado
24 Jun 2013

Duarte Galvão (1446-1517) situa o primeiro recontro no lugar de Santidanhas (ou Santilhanas, no crónica impressa) que Fernão Lopes chama, “Redanhos”, colocando-o a meia légua (2,5km) de distância de Guimarães. O historiador José Hermano Saraiva diz que “S. Redanhas” é um castelhanismo com o significado de “ato de bravura, feito corajoso” e que estará ligado ao início da Batalha de S. Mamede “junto à ponte do Rio Selho, a meia légua curta da cidade” (cf. História Concisa de Portugal, pag 46). Por sua vez, o historiador José Mattoso diz que “as tropas de Fernão Peres e os cavaleiros fiéis a D. Teresa, vindos das regiões de Coimbra e Viseu, atravessaram o Douro e dirigiram-se a Guimarães onde Afonso Henriques devia então estar” (cf. Biografia – D. Afonso Henriques – pag. 63). Daí que a entrada das tropas leais a D. Teresa se fizesse pela estrada romano-medieval da Veiga de Creixomil e o 1.º teria ocorrido na zona do lugar de Reboto, onde o Rio Selho também se chama Reboto e que a tradição diz ser o local onde a água ficou turbada de sangue dos feridos e mortos em combate.
Esse 1.º recontro não teria corrido bem ao jovem Afonso Henriques, o que o obrigou a recuar para junto do Castelo, para reorganizar as suas tropas e certamente pedir reforços. Foi aí, junto do Castelo, no Campo de
S. Mamede, que então D. Afonso Henriques derrotou definitivamente as tropas inimigas.
   Esta posição tem apoio na Crónica dos Cinco Reis onde se refere que num primeiro momento D. Afonso Henriques teria sido derrotado e quando se retirava do campo, indo a uma légua de Guimarães, encontrou Egaz Moniz que lhe diz: “Tornai e eu convosco e prenderemos vosso padrasto e vossa madre. E então se tornaram à batalha e a venceram”.             
Esta foi também a factualidade aceite por Luis de Camões e vertida no canto VIII, estância 13.ª, dos Lusíadas, nos seguintes termos: “Este que vês olhar, com gesto irado/Para o rompido aluno mal sofrido/Dizendo-lhe que o exército espalhado/Recolha, e torne ao campo, defendido/Torna o Moço, do velho acompanhado/Que vencedor o torna de vencido/Egas Moniz se chama o forte velho/Para leais vassalos claro espelho”.
O aluno e moço do texto é o infante Afonso Henriques.
A Batalha de S. Mamede teria terminado com a captura do inimigo, no lugar de Ataca, no limite da freguesia de S. Torcato com S. Mamede de Aldão, quando as tropas inimigas encetavam a fuga desordenada em direção à Póvoa de Lanhoso, onde devia estar D. Teresa. O termo “Ataca”, na perspetiva militar, significa “progredir sobre o inimigo com o fim de o destruir ou capturar”. Daí que se nos afigure errada a informação colocada num placar no Campo de Ataca, pela Câmara Municipal de Guimarães, ao dizer que aí teve inicio a Batalha,  de uma forma acrítica e numa insustentável ligeireza na apreciação dos factos. 
O mais antigo historiógrafo da Monarquia, no sec. XII, um cónego de Santa Cruz de Coimbra, autor dos “Anais de D. Afonso, Rei de Portugal” considerou o resultado da Batalha de S. Mamede como o primeiro episódio da história portuguesa e a restituição do poder ao seu legítimo detentor. No sec. XIII, a tradição coloca a Batalha de S. Mamede como um episódio ambíguo por trazer consigo uma certa maldição por D. Afonso Henriques ter preso a sua própria mãe, facto sem qualquer fundamento. Durante o sec. XIV a XVI, os historiadores passaram a atribuir maior importância à Batalha de Ourique, ligando-a à aclamação de D. Afonso Henriques como rei, sancionada pela visão miraculosa de Cristo. Porém, a partir do sec. XIX é restituída à Batalha de S. Mamede o significado nacional que lhe havia sido atribuído inicialmente nos referidos Anais.
O historiador José Mattoso, na esteira de Alexandre Herculano, considera-a mesmo uma revolução por “ter envolvido, num movimento colectivo, a maioria dos senhores do norte de Portugal e se ter verificado uma crise política que foi resolvida graças à agregação das forças de uma considerável quantidade de intervenientes”.
Incompreensivelmente, apenas Guimarães comemora o aniversário da Batalha de S. Mamede, enquanto Presidente da República continua a agendar para esse dia outras tarefas bem menos importantes, ignorando completamente o significado histórico do dia 24 de Junho.




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