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“Brasil, vamos acordar, o professor vale mais do que o Neymar”

É difícil dizer exactamente o que querem e o que não querem as pessoas que têm enchido as ruas de inúmeras cidades brasileiras como desde há muito não se via. Elas manifestam-se por coisas diferentes. O jornal O Globo, que colocou no seu site um inquérito para indagar “qual é o principal motivo para a adesão de milhares aos protestos no país”, percebeu rapidamente que as razões são variadas. A maioria indica uma “insatisfação generalizada contra tudo”, mas as ruas também se encheram por causa do “repúdio à corrupção”, do “descontentamento com os partidos e políticos”, da “atuação da polícia em São Paulo” e dos “gastos com a Copa do Mundo”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
23 Jun 2013

Quem reparar nos múltiplos cartazes dos manifestantes que se podem ver nas fotografias publicadas na imprensa ou nas reportagens televisivas concluirá que os brasileiros querem menos circo e mais pão. Mais pão, assim como mais paz, habitação, saúde e educação, como se ouve numa canção de Sérgio Godinho. “Brasil, vamos acordar, o professor vale mais do que o Neymar”, pedia-se em vários cartazes. Em várias cidades, segundo relata a imprensa, foi isso o que mais gritou a multidão. Outras palavras de ordem fizeram ainda saber que “o povo acordou, o povo decidiu: parem a roubalheira ou paramos o Brasil” e que “da Copa abrimos mão, queremos dinheiro para saúde e educação”.
Os cartazes surgem, quase sempre, escritos à mão. Em Curitiba, há um que diz: “Cartão vermelho para os cartolas da Copa”. Outro, em Porto Alegre, apresenta uma recomendação: “Quando seu filho ficar doente, leve-o a um estádio”. Em Bauru, uma senhora glosa, com letras enormes, uma conhecida canção: “Era um país muito engraçado, não tinha escola, só tinha estádio”. É enorme o descontentamento com os custos dos negócios do futebol e as derrapagens que lhes estão sempre indexadas.
A organização não-governamental Rio de Paz, do Rio de Janeiro, depois de notar que os estádios de futebol brasileiros estão agora no “padrão FIFA”, o que necessitou de um investimento “imenso e obsceno” de dinheiros públicos, denuncia que “o povo brasileiro foi atingido na alma ao ver a sétima economia do mundo manifestar vontade política para construir e reformar campos de futebol e não demonstrar o mesmo empenho visando a solução de problemas sociais crónicos”. O “padrão FIFA” serve agora de referente para as reclamações populares. “Queremos escolas padrão FIFA”, exigem uns. “Queremos hospitais padrão FIFA”, pedem outros.
O diário francês Le Monde datado de quarta-feira também regista o contraste entre o “padrão” que há e o que devia haver: “Ao vermos, dia após dia, os manifestantes, em cada vez maior número, irem para as ruas para criticar a má administração e as quantias abissais investidas na organização da Campeonato do Mundo de Futebol, enquanto os serviços públicos como a saúde e a educação estão num estado deplorável, podemos questionar se os dirigentes brasileiros não tiveram os olhos maiores do que a barriga”.
Nas ruas e avenidas brasileiras está a ser dada uma boa lição, que ensina a estabelecer a justa hierarquia das prioridades, frequentemente desvirtuada no Brasil ou no Portugal dos estádios de futebol caríssimos e, em vários casos, absolutamente inúteis; e dos programas de futebol em que, ano após ano, se arrastam eternas discussões sobre os árbitros que não assinalam esta ou aquela falta. O futebol pode, evidentemente, ser um desporto, mas ele é também – e, não raras vezes, ele é sobretudo – a sombra para onde, não propriamente por razões desportivas ou em nome do bem comum, confluem autarcas, empreiteiros e desportistas de arribação.
O Campeonato do Mundo de Futebol de 2014 surge no pior momento para o Brasil, escreve Jérome Latta, no blogue Une balle dans le pied, alojado no site do jornal Le Monde. Considera o chefe de redacção dos Cahiers du Foot que o futebol está a perder a sua legitimidade de cultura popular e, além disso, os supostos beneficios colectivos, que haveria a esperar da organização das grandes competições internacionais, estão cada vez mais a ser colocados em dúvida. “Realmente, os estudos económicos recentes tendem a estabelecer, pelo contrário, um impacto negativo destes negócios, que apenas beneficiam algumas indústrias, deixando vários elefantes brancos na paisagem e um encargo financeiro esmagador para as autarquias”. Jérome Latta acrescenta que “os terríveis exemplos de Portugal e da Grécia, organizadores em 2004 do cam-
peonato da Europa de futebol e dos Jogos Olímpicos, são a este respeito eloquentes”.
É possível que, quando os protestos terminarem, os brasileiros não tenham ganho escolas, hospitais ou segurança “padrão FIFA”. No entanto, cumpriu-se uma palavra de ordem: “O povo não deve temer seu governo. O governo deve temer seu povo”. Muitas vezes, é por aqui que o que importa começa.




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