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Um olhar em redor

Aproveito este tempo de férias que passo, normalmente, aqui bem perto da princesa do Lima, na praia da Amorosa (sim, os aposentados, principalmente aqueles que teimam em manter-se prestáveis, activos ou úteis, também precisam delas, ao contrário daquilo que muitos pensam), aproveito-as, como ia dizendo, não apenas para renovar energias mediante o contacto estreito e diário com este mar que sempre me fascinou mas, igualmente, para quebrar aquela rotina que nos asfixia aos poucos ao longo do ano se não formos capazes de lhe fazer frente, alterando hábitos, vendo outros sítios, outras pessoas.

Joaquim Serafim Rodrigues
22 Jun 2013

Claro que a leitura e, bem assim, a escrita, não são nunca postas de lado. Porém, e olhando esse mar imenso aqui da varanda onde me encontro, mar esse que, no dizer de Miguel de Unamuno fez Portugal, dou comigo “navegando” pela nossa História tão rica de feitos extraordinários, epopeias e vultos insignes.
Posto isto, e quase sem saber como, eis-me face a Camões, ao lembrar-me daquilo que por ele foi dito, genialmente, há quatrocentos anos atrás: “Os bons vi sempre passar / no mundo graves tormentos; / e, para mais me espantar, / os maus vi sempre nadar / em mar de contentamentos. / Cuidando alcançar assim / o bem tão mal ordenado, / fui mau, mas fui castigado. / Assim, que só para mim / anda o mundo concertado…”.
Não encontro no meu vocabulário, aliás, no nosso opulento léxico, um termo adequado, um adjectivo mediante o qual seja possível classificar não apenas a graça mas, também, o velado humor que uma tal redondilha esparsa encerra. E mais: o que é que mudou, no tocante à justiça humana, de então para cá?
Já sobre o desconcerto do mundo duas coisas o Poeta não entendia: a falta de justiça social e a loucura dos homens em amontoar bens mundanos (ilicitamente, acrescento eu).
Fechada esta pequena alínea, ou parágrafo, como queiram, aqui introduzida no texto, e tendo igualmente em consideração a redondilha citada, revestem-se de uma actualidade por demais evidente as palavras utilizadas por Camões e, bem assim, tudo aquilo que lhes é subjacente, pois não é difícil concluir que quase nada mudou, no nosso país, neste domínio tão melindroso e fundamental que consiste em administrar bem a justiça.
Tenhamos presente, por exemplo, a ligeireza com que se atira para a cadeia tudo quanto é arguido em se tratando de um pobre (refiro-me à prisão preventiva). Porque os ricos, poderosos ou influentes, são mandados para casa com pulseira electrónica, quando são ou, em alternativa, apenas ficam obrigados àquelas apresentações periódicas nas esquadras mais próximas (se calhar até o fazem por telefone…).
Entretanto, mais tarde ou mais cedo, vêm alterados os “pressupostos de facto e de dieito” que justificavam essas situações algo incómodas, arrastando-se então os respectivos processos a ponto de cairem no esquecimento, suplantados por outros mais actuais, quiçá mais atraentes os quais, todos estes e ainda os novos que acabarão por sugir inevitavelmente fazem as delícias dos grandes causídicos.
Aligeirando agora um tanto esta minha primeira crónica enviada daqui deste lugar de férias tão calmo e acolhedor, permita, caro leitor, que lhe refira que já dei uma fugida até Viana para matar saudades dessa minha juventude ali plenamente vivida (também servi em Artilharia 5, vindo após o meu curso efectuado em Cavalaria 7, em Lisboa, pois aquela Unidade era também montada) e aproveitei essa ida à “Princesa do Lima” para recordar, na sua bela avenida marginal os concertos efectuados pela Banda de Caçadores 9, regida a preceito pelo saudoso capitão Dantas.
Inesquecíveis alguns deles, como, por exemplo, esse “Orfeu dos Infernos” de Offenbach: o regente, inclinado sobre um conjunto de flautas dispostas junto de si, à direita, a batuta como que flutuando por cima dos instrumentos, a mão esquerda em movimentos leves, ondulantes, sustentanto o som pretendido, um pianíssimo, ou erguendo-se empolgado, os braços abertos em gestos largos, a batuta riscando o ar em direcção ao fundo do coreto, despertando as percussões, soltando os metais e provocando o estrondo final, um estrépito tremendo, temeroso, logo seguido dos aplausos vibrantes da multidão exultante, rendida ao fascínio de uma tal partitura!




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