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O estádio do “Anjo das Pernas Tortas”

Não falta quem manifeste a sua estupefação pelas manifestações de violência extrema que têm rodeado, nos últimos dias, a Taça das Confederações, que decorre no Brasil e que é assumida como a “antecâmara” do Mundial de Futebol de 2014 e dos próximos Jogos Olímpicos — eventos que também se vão realizar no “país-irmão”. Na verdade, os canais televisivos portugueses têm-se feito eco dessas manifestações, apresentando imagens arrepiantes dos desacatos iniciados em Brasília, local onde arrancou a Taça das Confederações, e que já alastraram a outras grandes cidades brasileiras.

Pedro Álvares de Arruda
21 Jun 2013

Menos surpreendidos estarão aqueles que (como eu) têm acompanhado o desenrolar do processo de preparação dos grandes eventos desportivos acima enunciados, não se limitando a visionar os jogos que a RTP nos vem mostrando diariamente.
A revolta dos muitos milhares de brasileiros tem a ver, sobretudo, com o “desfasamento” entre o novo-riquismo que rodeia a preparação daqueles eventos e a pobreza que continua a imperar no Brasil. No fundo, o que espoletou estas manifestações violentas foram os enormes gastos que o Governo Federal aplicou na construção (e reconstrução) dos doze estádios de futebol que servirão de cenário ao Mundial-2014, cinco dos quais já em “atividade” na Taça das Confederações.
Para se ter uma ideia do que está em causa, atentemos no custo do Estádio Nacional Mané Garrincha – o famoso “Anjo das Pernas Tortas” que em 1962 carregou o Brasil às costas até à conquista de mais um Campeonato do Mundo, dada a ausência de Pelé nessa prova, por lesão. Só a remodelação deste estádio (que serviu para o arranque da Taça das Confederações) custou ao erário público brasileiro 285 milhões de euros! E nele trabalharam, durante dois anos, 15 mil trabalhadores – que agora foram lançados para o desemprego…
E isto passou-se numa cidade (Brasília) onde não há equipas de futebol de primeira linha, pelo que, terminado o Mundial-2014, o grandioso “estádio-monumento” (como lhe chama Maruska Holanda, engenheira responsável pelas obras) ficará praticamente às moscas, sem adeptos que preencham os seus 72 mil lugares sentados!
Acrescente-se que o orçamento inicialmente previsto para a remodelação do Estádio Mané Garrincha (que agora foi rebatizado com o nome de Estádio Nacional Mané Garrincha) era de 140 milhões de euros. Mas, no fim, o custo chegou aos já referidos 285 milhões de euros…
Perante estes desmandos, que contrastam com a pobreza que grassa no Brasil (quando se fala do progresso económico daquele país, isso diz respeito aos ricos…), creio que até o genial Garrincha, que oferece o nome ao “estádio-monumento” de Brasília, dará voltas no túmulo (onde jaz desde 1983), tanta é diferença entre o “seu” estádio e o salário que lhe foi atribuído pelos clubes por onde passou, com predominância para o Botafogo, por quem jogou 614 partidas e marcou 245 golos! Aliás, Garrincha morreu pobre e teria sentido enormes dificuldades económicas não fora o apoio que recebeu da sua mulher Elza Soares, considerada pela BBC a melhor cantora de samba e de bossa-nova do século XX…
Não é aceitável a violência dos brasileiros nestas manifestações. Mas é compreensível que se rebelem contra os estonteantes gastos com o futebol, quando milhões deles vivem na mais absoluta das misérias.




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