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Romualdo codeço

Ele, Romualdo Codeço, 97 anos bem pesados e medidos, ficou para o fim. Pertencia a uma grande e animada tertúlia que entretinha os ócios e a reforma, ora nos bancos dos jardins públicos entre dois dedos de amena cavaqueira sobre política e futebóis e prolongados silêncios cúmplices, ora em casas de pasto entre umas rijas sessões de sueca ou bisca lambida, culminadas por bródios de pataniscas de bacalhau frito ou iscas de fígado com cebolada, bem regadas com tigeladas de tinto.

Dinis Salgado
19 Jun 2013

Levou-os todos ao Monte D’Arcos – a última morada – com aquela ternura e verdade que das coisas mais singelas e banais autênticos atos de fé fazem. E cada vez que lá deixava mais um (o Libório, o Tibúrcio, o Timpanas, o Temístocles…) era um pedaço de si próprio que igualmente lá ficava, sob as pazadas de terra, pesada e vária, e o pasmo do silêncio eterno.
Porra, pelos amigos a gente até se vira, se preciso for. – sentenciava.
Um filósofo, um verdadeiro filósofo este Romualdo Codeço. E era o mais velho do grupo. O que se supunha ser o primeiro a abandonar o barco.
– Mas as coisas são como são e não há volta a dar-lhes nem sentido a inverter-lhes. – desabafava quantas vezes, agora, com seus botões.
Muito menos culpa tem de ser ele o último e, como tal, responsável por apagar as luzes e fechar a porta… da vida. Porém, uma coisa garante já: há-de fazê-lo com a dignidade, a pompa e a circunstância que o momento reclama e a memória do grupo merece.
Já vem dos inícios do século passado. E, como todos os melhores contadores de luas e de sóis, é um livro aberto. Atravessou muitos desertos, enfrentou muitos ventos e marés e até a árvore das patacas abanar tentou lá pelos brasis. Mas, como tantas outras coisas na sua vida, não deu certo. E, apenas, de lá trouxe desilusões e maleitas. Por isso, é que é um homem com um agudo e prático sentido da existência e sabe mais da vida do que qualquer iluminado das políticas ou das sociologias.
– Uma gaiatada! Nos tempos de Paiva Couceiro é que sim. Os homens não se mediam por bagatelas, nem se vendiam por pratos de alfarroba, como agora. – diz ele dos políticos.
OIha ainda, com malícia e safadeza, as garotas (não fora casado três vezes e um dos velhos mais rapioqueiros das redondezas) e tartamudeia:
– No meu tempo não havia disto. Umas franganitas estas moçoilas de hoje que nem com uma gata podem pelo rabo e já nem saia usam. As mocetonas do meu tempo, caramba, eram capazes de dar um alto a uma pipa de vinho e não andavam por aí de rabo e úberes quase ao léu.
É, agora, um homem só. Nem mulher, nem filhos. E os amigos, que eram a sua única riqueza, todos se foram e as tertúlias também. Sente que já não terá muito tempo mais de vida. As pernas fraquejam-lhe bastante, a cabeça, por vezes, já confunde alhos com bugalhos, os intestinos começam a falhar e a encravar, mormente nas necessidades óbvias, e o coração, ai o coração, de tanto amar e sofrer é uma máquina estafada que ronrona e resfolga ao primeiro esforço.
Mas, não faz mal. Uma coisa há na vida que ele sempre soube fazer com elegância e oportunidade: sair de cena quando sente que está a mais e pela porta larga que é a única forma de sair de cabeça erguida e feliz. E assim, fará quando chegar a hora.
Porque, além do mais começa a sentir que o mundo lhe é cada vez mais adverso e hostil e a vida se lhe escoa lentamente. E, assim, não. Nem dignifica, nem vale a pena.
– A vida só tem verdadeiro sentido, quando ainda temos alguma utilidade e veemência. E raízes, obviamente, que são os afetos que nos ligam às pessoas e às coisas.
Um filósofo este Romualdo Codeço. Um filósofo, sem dúvida.
Então, até de hoje a oito.




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