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Quando a hipocrisia faz política

Há dias uma amiga minha contava que recentemente teve acesso à gravação da talvez última entrevista de Bertrand Russell em que afirmava, ele que começara por ser um entusiasta da revolução bolchevique, que «a Rússia era uma grande prisão». Convidado por Lenin, nos primeiros anos da revolução, a visitar a Rússia, onde terá permanecido pouco tempo e onde nunca mais terá querido voltar, Bertrand Russell recordava como tinha ficado impressionado, entre outras coisas, pela frieza de Lenin quando o questionara sobre o sofrimento humano, associado às execuções que se faziam em seu nome, a que aquele respondera qualquer coisa como: a revolução deve prosseguir, esse é o meu objectivo; o sofrimento humano não me afecta.

Maria Helena Magalhães
19 Jun 2013

A isto alguém ao lado acrescentou que os radicalismos de esquerda ou de direita se confundem: o neoliberalismo também se mostra indiferente ao sofrimento das pessoas.
Aqui chegados, vamos às razões da chamada greve dos professores. Assistimos a um inusitado braço-de-ferro entre sindicatos e ministério da educação. Digo inusitado porque ambas as partes declaram defender princípios fundamentais e, em última análise, a escola pública, a qualidade do ensino e o interesse dos alunos. Em que ficamos? À hora a que escrevo, no sábado dia 15, milhares de professores se manifestam em Lisboa. Ontem houve uma autêntica maratona negocial que deu em nada. Os professores não desmobilizaram e, muito provavelmente, não desmobilizarão e na próxima segunda-feira a greve aos exames terá grande expressão. Não é necessário tomar partido, basta, em meu entender, observar o que se tem passado nos últimos dias e ouvir com atenção o que se diz.
Os professores estão em luta pelo direito ao trabalho e contra as alterações  ao regime laboral. O direito à greve está constitucionalmente estabelecido. É legal e legítimo. O Governo reclama serviços mínimos e, na falta de entendimento, decide aguardar a decisão de uma comissão arbitral, decisão essa que vem dar razão aos sindicatos. Resultado, o Governo decide interpor recurso para um tribunal administrativo. E, se o recurso também lhe vier a ser desfavoravel, o primeiro-ministro assumiu já o compromisso de mudar a lei (!!!). Estranho.
No final, é comovente ouvir os nossos governantes invocar o sofrimento que a greve aos exames causará a alunos e famílias, prejudicando a entrada nas universidades, particularmente se atentarmos no enorme sacrifício de muitos pais para proporcionar aos filhos um curso superior. Correcto.
Ocorre-me então perguntar: e a taxa de desemprego jovem não comove o Governo?  Desemprego que, segundo o Eurostat, andará já pelos 42,5%. E muitos destes jovens são licenciados. Sofrimento? Que o digam as famílias que os vêem desocupados e desmotivados ou emigrados.
A hipocrisia, meus senhores, deve ter limites!




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