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Max Scheler, O Cavaleiro dos Dualismos

Relativamente à teoria do saber, o ponto de partida do pensamento de Scheler (1874) é seguir o método fenomenológico. Vou dar, aqui, uma explicação muito singela da fenomenologia. Scheler vai dar o nome de dado àquela laranjeira, que é uma realidade e está, ali, à frente dos nossos olhos. À imagem ou representação do dado (laranjeira), colhida pela nossa visão (a sensação), vai dar-lhe o nome de fenómeno (imagem sensorial). A partir daqui, o fenómeno pode ser fecundado pela mente, e será dada à luz a ideia, conceito ou compreensão (imagem mental).

Benjamim Araújo
19 Jun 2013

Contudo, segundo Scheler, o saber não está no conhecimento sensorial do dado (laranjeira), nem no conceito. Está, isso sim, no ato humano, que engloba o dado e o conceito. A partir daqui, Scheler vai mencionar as classes de saber (saberes de domínio, das essências e da salvação).
O saber da salvação culmina na Religião. Relacionada com a Filosofia e a Metafísica, entra em ação a Antropologia Filosófica, já saturada de tantas vezes questionar: O que é o homem? Satisfeita esta questão, diz Scheler, está justificado o acesso para Deus.
Uma das caraterísticas da filosofia de Scheler está no facto de enveredar pela admiração. A descoberta mais marcante da sua filosofia são os valores. A pirâmide dos valores culmina com os valores religiosos e a adoração a Deus. Há outros aspetos do seu pensamento que vão focar o homem e Deus: a fenomenologia da religião; o desenrolar do seu pensamento dualista, passando pela conceção distinta do homem entre a sua vida e a sua alma; o dualismo que levanta a crista  entre a esfera da essência e a esfera do valor, entre a inteligência e a intuição emocional, entre a Religião e a Metafísica; o conceito de pessoa entre ser-objeto e ser-ato?
O valor da Religião, o acesso para Deus e a grande preocupação a respeito daquilo que o homem é, são aspetos do seu pensamento, que muito me encantaram e me embeberam de satisfação.
Vou, agora, ao encontro de uma resposta, simultaneamente natural e transcendental, temporal e eterna, que se ajuste, integral e plenamente, a esta pergunta, saída dos lábios, a corarem de insatisfação, da antropologia filosófica: – O que é o homem?
Diz Scheler que, satisfeita esta questão, está justificado o acessso para Deus. Quanto a mim, Scheler deu um pontapé desajustado ao partir de um dualismo. Assim, o acesso para Deus torna-se forçado e ilusório. Passo a justificar a minha opinião. A estrutura do homem, segundo o filósofo, é uma unidade fechada, constituída pela vida (o corpo) e pela alma. Estas duas realidades são distintas entre si, e a alma supera o corpo, em valor.
Interrogo-me: – O que é que estes desníveis de valor poderão despoletar, na vida prática, tanto no relacionamento comigo mesmo, como com o outro? Poderão despoletar supremacia de um sobre o outro. Poderão despoletar rejeições, marginalizações, desvalorizações, violências, lutas, ódios. Podem despoletar um amor sem autonomia, sem liberdade, sem responsabilidade, sem justiça, sem fraternidade? Sendo assim, questiono, o acesso para Deus estará aberto e justificado?
A resposta, que se ajusta, em plenitude, à pergunta sobre o que é o homem, penso que vai sair daqui: o homem global, na sua eterna realidade transcendental, é,  na sua constituição, um ser uno, simples e dissolvente, em si, de toda a dualidade. Este ser gera, pela graça do poder, da sabedoria e amor de Deus, as suas potencialidades ativas de vida, paz, amor, luz, beleza? É neste alteroso e vivo oceano de potencialidades, que Deus, embora o supere, se nos mostra, através da nossa meditação, intuição e contemplação. Agora toda a nossa globalidade humana O recolhe.
O homem temporal, na sua realidade natural, complexa, instável, dualista e plena de contrários é, perentoriamente, a manifestação da realidade transcendental. É nesta realidade, e por seu imperativo, que o homem temporal se tem de integrar, cooperar, sintonizar e se realizar, isto é, tem de viver, por fim, em ordem ao eterno. Existencialmente falando, o homem é esta globalidade oriunda do temporal movediço e do eterno estável. Esta globalidade é filha da terra e do espírito.




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