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Afrontamentos

Já ouvi dizer e também já vi escrito que os rapazes andam empertigados, que fazem e desfazem sem pensar, como adolescentes. Que são rebeldes, como todos os jovens, e isso é normal, e que desrespeitam quase todos, incluindo os do seu grupo etário, o que já não é normal. A observação vem detrás, desde que os ditos impuseram tributos brutais a todos e começaram a ameaçar os mais idosos, principalmente os reformados, e os seus mais directos colaboradores. Os denunciadores foram manifestantes de todas as idades e profissões, mas quem os caracterizou de rapazes foram os mais experimentados da vida, muitos já reformados, que não se revêem naquelas práticas e discordam dos assaltos por esticão feitos a franjas de população incauta e sem tempo para medidas de contingência.

Luís Martins
18 Jun 2013

O grupo de rapazes, como se diz, aproveitou a boleia de um acto eleitoral para iniciar o seu plano, dizem que neoliberal, de destruição massiva do país e suas gentes, através duma austeridade devastadora, com muitos impostos à mistura, sem compensações para o necessário equilíbrio na curva da qualidade de vida e do bem-estar social. Foram-se já ao galheiro vários milhares de empresas e centenas de milhar de empregos sem que tenha havido o mínimo de preocupação pelas consequências, fazendo com que as pessoas mais desprotegidas tivessem de se virar para a sopa dos pobres como último recurso de sobrevivência. Um afrontamento descarado, indecente e vil. Foi assim no princípio, depois e é assim agora.
De quando em vez, o afrontamento é mais selectivo, mas sem originalidade. Não bastava a ideia fixa do despedimento em série, a saga contra funcionários públicos e pensionistas continua na questão dos subsídios de férias, que o primeiro-
-ministro teima em pagar apenas no inverno. Na última sexta-feira, no debate do Parlamento, foram muitos os que falaram de foras de lei, tendo o chefe do Governo sido visado. Disse-se que não cumpre a lei em vigor. E, na verdade, o primeiro-ministro não pára de afrontar o que há de mais singular e importante no Estado de direito: que a lei é para ser cumprida e por todos, governantes incluídos. Já antes afrontara a lei fundamental do país, procurando agora, por todos os meios, vingar-se da decisão e dos que mais directamente estavam envolvidos na perseguição. De facto, os pedaços de texto falado que pude ouvir pareceram-me de um verdadeiro filme do far-west americano. Com uma diferença: nesse tempo e nesse país, quem não cumpria a lei era o bandido; agora e em Portugal, quem não cumpre e teima em não cumprir, são o xerife e os ajudantes. Por cá, a ameaça vem mesmo do xerife, não dos nativos.
Para mais, a economia até beneficiaria do cumprimento da lei, uma vez que mais dinheiro disponível na carteira da população poderia dinamizar o emprego. Depois, a falta de “suporte orçamental”, como se alega, não vai existir. Ninguém duvida que o orçamento rectificativo vá ser aprovado, muito menos o primeiro-ministro. Além disso, se ainda fosse bom para o estado de emergência em que o país se encontra, a alteração do período de férias dos portugueses… Tudo seria diferente se o Estado não tivesse condições para cumprir, com oportunidade, as suas obrigações, mas tem. Ninguém entende, por isso, as razões invocadas pelo Executivo, incluindo os correligionários das bancadas que ainda lhe dão “suporte de vida”. Dentro e fora do Parlamento, muitos militantes estão contra Passos Coelho e andam envergonhados com o caminho seguido pelo Governo, sem saberem o que dizer a quem os aborda e questiona sobre tudo o que está a acontecer.
Tenho defendido a mudança de governo. Não vejo por que não agora. A haver alguma instabilidade política, seria preferível que acontecesse enquanto temos a rede dos parceiros credores a amortecer o embate e não quando estivermos sós no imenso mar revolto da geografia económica e financeira deste rectângulo onde vivem dez milhões de portugueses empobrecidos. Continuo a pensar assim.




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