Fotografia:
Fiéis servos de amos perversos

Não obstante as risíveis deambulações meteorológicas do ministro das Finanças, talvez seja mais fácil hoje, para os portugueses minimamente lúcidos, antecipar o estado do nosso país nos próximos anos do que arriscar o estado do tempo na próxima semana. Seremos certamente um país demograficamente envelhecido, com os mais importantes polos e símbolos de riqueza na mão de estrangeiros, com os indicadores de confiança abatidos em diversos planos – nas instituições e nos atores políticos, mas também no atinente à propensão para o investimento e o consumo – e, pode admitir-se até, com um espetro crescente de doenças de foro neurasténico.

Amadeu Sousa
17 Jun 2013

Tudo isto em nome da competitividade dos portugueses e do bom nome do país como pagador, mas, muito provavelmente, tudo sem sentido e sem sucesso. Veremos, pois. Hoje, numa subversão das regras democráticas, no leme da governação, impõe-se, quase até ao estiolamento, a figura de um ministro das Finanças que não acerta uma previsão, mas que se mantém inamovível no cargo porque sim e porque Passos e os alemães gostam. Talvez, afinal, a política financeira e social do atual Governo esteja subordinada a uma agenda semi-oculta e maléfica que, numa espécie de recuperação do mito da “fenix renascida”, antecipa, com uma certeza de Lapalisse, que o crescimento retornará vigoroso depois de toda a destruição e sofrimento. E se assim for, só poderemos esperar que os timoneiros desta nova “revolução cultural e económica” não tenham tempo de executar todo o seu plano.
Olhando para o drama grego e para os maus resultados económico-financeiros da terapia aplicada pela troika àquele país, só podemos ficar estupefactos com a mea culpa publicamente vertida por alguns dos impositores da austeridade (designadamente altos responsáveis do FMI) quando, numa incompreensível contradição, os mesmos decisores insistem numa repetição do modelo em Portugal. De facto, ignorando princípios elementares da ciência ou do bom senso, os donos do dinheiro, caprichosamente, teimam que se a receita aplicada está a ter repercussões nefastas nos mais diversos planos a opção reside em aumentar a dose para se intentar a obtenção de resultados opostos! E, por cá, o nosso inenarrável Gasparr (assim, com sotaque alemão), arrastando toda a política governativa na voracidade da sua crença de que das cinzas há de sair um país novo, humilde, poupado, onde os pobres e os carentes haverão de ter vergonha da assistência social, permanece resoluto em direção ao zero absoluto, marcado como o ponto de todos os recomeços, ridentes e esperançosos…
Uma ressalva. Este horizonte sombrio que perspetivo poderá vir a ser atenuado se, designadamente, as lideranças europeias perceberem – é urgente que percebam, pelo futuro da própria União Europeia – que um país exangue, sem economia, não poderá pagar as suas dívidas. Uma reconfiguração do pagamento da nossa dívida pública (chame-se-lhe reestruturação ou outra coisa) poderá decerto atenuar o cenário, viabilizando, ademais, que a paguemos com razoabilidade e na justa medida.
Ainda que vivamos num tempo de globalização, é para os governos nacionais que as populações olham primeiro, e principalmente, quando procuram defensores dos seus interesses ou auxiliares para as suas necessidades e direitos. Somos um país em “estado de sitiados” e por isso qualquer governo eleito não dispõe da plena liberdade para desenhar políticas de acordo com o seu programa ou ideologia. Mas afigura-se-me difícil compreender que um governo que representa os portugueses, todos, se mostre pressuroso e quase ufano em aplicar medidas que os credores externos reputam de adequadas para a cura financeira e económica, mas cuja valia a realidade tem desmentido no essencial. Mais, se estamos em “estado de sitiados” não estamos, todavia, em estado de sítio e, por isso, impõe-se que o Governo não aproveite para subverter a realidade, para teimar em desafiar os limites constitucionais (e o Tribunal Constitucional) nas diversas leis que recolhe do Parlamento ou nas decisões que toma (isto vale para o “paga, não paga”, em tempo, o subsídio de férias a reformados/pensionistas e funcionários públicos ou para os limites no direito à greve, por exemplo).
Pelo país e pela Europa, fissurada e ameçada, precisamos de um governo que nos represente e não de um governo que, teimosamente, nos moleste, nos acabrunhe e nos apoquente.




Notícias relacionadas


Scroll Up