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Aprendendo a agradecer e a desculpar

A atitude de “saber agradecer” é uma das vertentes com que revelamos quer a nossa educação quer a nossa capacidade de atenção aos outros. Quando dizemos ‘obrigado’ a alguém estamos a envolver e a deixar-nos envolver por este sinal de que a outra pessoa é para nós e a quem dizemos “obrigado”, sendo digna da nossa estima e da nossa correlação com ele. Aliás, o uso da palavra “obrigado” é o resumo dessa frase mais longa: “sinto-me muito obrigado a agradecer”. Deste modo, dizer “obrigado” não é uma expressão de obrigação, mas manifesta a nossa dedicação a esse/a a quem dizemos simplesmente “obrigado”.

A. Sílvio Couto
17 Jun 2013

Para ilustrar o clima social em que vivemos – normalmente fora da narrativa do saber agradecer – deixamos uma breve estória, que anda espalhada por várias publicações…
Uma criança já (minimamente) crescida fez uma lista das “contas”, que no seu conceito, a mãe lhe devia e que esta encontrou à cabeceira da cama, onde se lia: de cortar a relva do jardim – dois euros; por limpar o meu quarto durante a semana – dois euros; por cuidar do meu irmãozinho enquanto foi às compras – um euro; por limpar e varrer o quintal todos dias da semana – cinco euros. Total da dívida – dez euros!
Por seu turno, a mãe ao ver tal lista, enumerou as suas “despesas”, que atentamente anotou e deixou à cabeceira do filho tão “exigente”: por te levar nove meses em meu ventre e por te dar a vida – nada; por tantas noites sem dormir, por te trazer ao colo e por te dar de comer – nada; por te limpar, te vestir e te adormecer – nada; pela comida, as roupas e os brinquedos que te dei e arrumei – nada; por tudo o que fiz e terei de fazer para fazer de ti um homem – nada. Custo total e global: nada!
Ao acordar o filho “reivindicativo” leu as contas da sua mãe e foi-lhe pedir desculpa…
De facto, hoje vivemos, infeliz e desgraçadamente, marcados pela ausência em dizer ‘obrigado’ e em ‘pedir desculpa’… uns aos outros. Parece que estes dois mínimos conceitos e actos de educação foram banidos do nosso trato social… Quem os exercita, a começar em sua casa, no trabalho e no convívio social? Quem os cultiva para com os outros? Haverá honrosas excepções!

1. Mesmo que de forma simples poderemos apresentar alguns aspectos para uma cultura do saber agradecer:
• Gratidão – ser grato é uma qualidade que exprime o reconhecimento daquilo que nos fazem, de forma directa ou indirecta, pois a ingratidão é, hoje, mais cultivada do que a gratidão pelos peqeunos ou pelos grandes gestos, feitos e factos.
• Simplicidade – para quem recebe gestos e sinais de carinho, desde os mais simples até aos mais complexos, agradecendo a Deus o que d’Ele vamos recebendo e da descoberta de como Ele nos ama… mesmo sem disso estarmos totalmente conscientes, quando Ele se esconde nos rostos de quem nos rodeia.
. Atenção aos outros – na medida em que pensamos mais neles do que em nós mesmos, atendendo mais às suas necessidades e qualidades do que, como acontece agora, nas nossas “virtudes” e aos seus defeitos.
• Valorização mútua – quando agradecemos olhamos mais para aquilo que recebemos do que para aquilo que damos, e, na medida em que damos é para que o que recebemos seja para maior contentamento dos nossos interlocutores habituais, ocasionais ou de convívio mais difícil.

2. Ao agradecimento está conexa a atitude em pedir desculpa, valorizando a quem podemos ter desagradado ou mesmo ofendido. Também aqui há vertentes simples para que “pedir desculpa” possa ser natural no nosso dia a dia:
– Humildade em reconhecer os seus erros, aceitando-os e querendo corrigi-los com a ajuda dos outros;
– Sinceridade no trato sem hipocrisias nem aproveitamento dos outros;
– Verdade sem nada esconder nem fazer-se vítima ou réu, sendo leal e vivendo de cabeça levantada por nada ter a esconder a não ser a boa harmonia para com todos… a começar pelos que nos estão mais próximos.

= Será que ainda vamos a tempo de reconstruir a sociedade, dizendo “obrigado” e pedindo “desculpa”?




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