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Experiência de quase-morte (4)

Uma questão relevante no que respeita aos relatos de experiências de quase-morte (morte clínica) é saber que credibilidade eles nos podem merecer. Essa é, certamente, a questão que muitos leitores já se puseram a si mesmos. E com razão, porque não podemos acreditar em tudo o que ouvimos, por mais maravilhoso que seja. Precisamos de razões para acreditar.

M. Ribeiro Fernandes
16 Jun 2013

Ora, apesar de ser uma matéria tão delicada e tão subtil, as coisas até são mais claras do que seria de esperar porque, o único aspecto questionável é saber se as pessoas que passaram por essa experiência merecem ou não credibilidade, uma vez que os outros aspectos que envolvem essas experiências podem ser testemunhados e comprovados: uma doença ou um desastre que a pessoa tenha sofrido é sempre testemunhável e comprovável por médicos ou por familiares ou mesmo por testemunhas circunstanciais. Só aquilo que eles dizem ter visto e sentido é que não é testemunhável, porque se passa no seu foro íntimo e psíquico. É nesse âmbito que temos de procurar as razões de credibilidade.

1. Antes de mais, há um argumento básico a favor da credibilidade do sujeito sempre que ele demonstra, no seu discurso, coerência e relação com a realidade. Um discurso delirante nunca teria estas características.
Há também um outro argumento, considerado por todos os estudiosos deste fenómeno, como muito relevante: quando todos os casos relatam praticamente a mesma coisa, é impossível que todos estejam errados. Se há elementos constantes no discurso de milhares de casos analisados, que nem se conhecem uns aos outros, dificilmente se pode considerar que todos estão a mentir. É praticamente impossível que isso aconteça. Foi a partir dessa constatação que se pôde estabelecer parâmetros constantes em todos os depoimentos, como referimos logo no primeiro artigo.
Há ainda o argumento de continuidade do discurso, em que não se pode acreditar numa parte não na outra, dado que fazem parte de um todo. Há casos em que descrevem também, no mesmo discurso em que referem a experiência do seu encontro com o ser de luz, o que antes se passou à sua volta logo que se sentiram fora do seu corpo. E esses factos podem ser confirmados testemunhalmente. Tomemos, por exemplo, o caso, citado por Moody, de uma menina que, enquanto morria, se viu a flutuar sobre o seu corpo e entrou noutra sala do hospital, onde encontrou a irmã mais velha a chorar, dizendo em lágrimas: “Katy, por favor, não morras…”. Quando, mais tarde, a Katy voltou a si e contou em família a sua experiência de quase-morte, relatou também este pormenor e a irmã mais velha confirmou que foi verdade e ficou tão emocionada que ia perdendo a fala.
Se essa parte do relato, logo que se sentiu a sair do seu corpo, pôde ser comprovada como real e aceite como verdadeira, por que se há-de duvidar do restante relato?

2. O que nos impressiona nestes depoimentos é tratar-se de algo que transcende o nosso dia a dia e numa área tão sensível e existencialmente significativa como é a morte e a descoberta de vida depois da vida. Possivelmente, estas “revelações” sempre existiram, ao longo da História, mas sempre foram reprimidas. Se alguém ousasse falar disso, arriscava-se a ser apelidado de bruxo e condenado em praça pública. Felizmente, as coisas estão a mudar. Talvez estejamos no limiar de uma nova etapa de caminhada do conhecimento humano.
Embora analisados sempre com a devida reserva, os relatos de quase-morte são teoricamente fáceis de aceitar e nem sequer colidem com a mensagem da religião revelada. Mais difíceis de aceitar serão os relatos de reincarnação; mas há gente muito séria e competente a estudar esses casos. No próprio movimento eclético da “New age” há muitas coisas óbvias que nem sequer merecem contestação, embora haja outras que, no estado actual dos nossos conhecimentos, serão mais difíceis de entender.

3.Tenho andado a reler estudos sobre a teoria de Jung. No fundo, embora ele nunca o tivesse claramente assumido (se o fizesse, seria logo acusado de falta de objectividade científica), o que ele defende é que a teoria de causa-efeito pode não explicar todos os factos na vida. Assumir que ela é a única comprovável dá-nos a ilusão de maior controle da realidade; mas, será que não há outra vontade causal para além das variáveis que podemos controlar?




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