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“A Inter­net é um estado de vigilância”

A notí­cia foi dada em primeira mão pelos diários The Guardian e The Washington Post: os Esta­dos Unidos da América têm um pro­grama secreto de vigilância generalizada na Internet, que per­mite que a Agên­cia de Segu­rança Nacional (NSA) e o Federal Bureau of Inves­ti­ga­tion (FBI) ten­ham acesso directo aos servi­dores de nove empre­sas do mundo da Internet (AOL, Apple, Face­book, Google, Microsoft, PalTalk, Skype, Yahoo e You Tube), de modo a con­hecerem dados relativos aos respectivos uti­lizadores, estejam em que canto do planeta estiverem, recaia ou não sobre eles qualquer suspeição, representem ou não qualquer ameaça.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
16 Jun 2013

A informação veio alargar o debate sobre a falta de pri­vaci­dade na Inter­net, emb­ora não tenha acrescentado muito ao que se sus­peitava ou sabia. Em “A Inter­net é um estado de vigilância”, um texto de 16 de Março, disponível no site da CNN, o especialista em segu­rança informática Bruce Schneier fazia já um bom retrato do que agora se passa.
“Quer o admi­ta­mos, quer não, quer isso nos agrade, quer não, somos permanen­te­mente vigia­dos”, observa Schneier. “O Google controla-nos, tanto nas suas pági­nas, como naque­las a que tem acesso. O Face­book faz igual, controlando mesmo os uti­lizadores não inscritos na rede social. A Apple vigia-nos nos iPhones e iPads”, exemplifica o autor, para dissipar qualquer dúvida. Se alguma subsistir, ele conta um caso que contribui para a dissipar. O protagonista é um jor­nal­ista que decidiu uti­li­zar uma fer­ra­menta chamada Col­lu­sion (da Mozilla) para deter­mi­nar se e quem o es-
pi­ava. Durante um período de ape­nas 36 horas, constatou que 105 empre­sas con­tro­laram o uso que fez da Internet.
Recordando que o que hoje tende a implicar o uso de um com­puta­dor e os com­puta­dores têm como efeito secundário pro­duzir, nat­u­ral­mente, dados, Schneier explica que tudo é reg­is­tado e cruzado e que inúmeras empre­sas vivem do negó­cio de recon­sti­tuir os per­fis da vida pri­vada de cada um a par­tir de vari­adas fontes. “O Face­book, por exem­plo, cor­rela­ciona o vosso comporta­mento online com os vos­sos hábitos de com­pra offline. E, mais ainda, tem os dados de local­iza­ção do vosso telemóvel e a gravação dos vos­sos movi­men­tos pelas câmaras de vigilância”.
“A vig­ilân­cia é omnipresente”, sublinha Schneier. “Todos somos vigia­dos durante todo o tempo e os dados ficam grava­dos defi-n­i­ti­va­mente”. O especial­ista em segu­rança infor­mática considera que “isto é que é um estado de vig­ilân­cia e é mais efi­caz do que aquilo que sur­gia nos son­hos mais selvagens de George Orwell”, autor de 1984, um livro que, como amplamente têm noticiado os media, aumentou o número de exemplares vendidos após a divulgação do caso de espionagem.
Após apresentar uma lista do que hoje se nos apresenta como necessário (a Inter­net, os e-mails, os telemóveis, os navegadores Web, os sites de redes soci­ais, os motores de busca), Schneier considera “é fan­ta­sista esperar que as pes­soas abdiquem de se servir disso tudo ape­nas porque não gostam de ser espi­adas, dando-se, ainda por cima, o caso de a ampli­tude de uma tal espionagem nos ser delib­er­ada­mente escon­dida e de haver pou­cas alternativas com­er­cial­izadas por empre­sas que não espiem”.
Claro que, como ele também lembra, podemos agir para nos pre­caver­mos. Podemos lim­i­tar o que pesquisamos no Google, uti­lizar um outro nome no Face­book, desli­gar os telemóveis e pagar com dinheiro, mas, para Schneier, à medida que tempo vai pas­sando, são cada vez menos as pes­soas que se inquietam com estas coisas.
Essa indiferença era também notada na quarta-feira, no edi­to­r­ial do diário suíço Le Temps. Nele, Stéphane Bus­sard deixava uma inter­ro­gação: “A democracia está em perigo?”. Depois de con­statar que as fugas de infor­mação que per­mi­ti­ram desco­brir a vastidão das activi­dades de vigilân­cia tele­fónica e elec­trónica sus­ci­taram uma enorme indig­nação con­tra o seu autor, o “traidor” Edward Snow­den, o cor­re­spon­dente do jor­nal nos Esta­dos Unidos da América espanta-se com a cir­cun­stân­cia de, em con­tra­partida, terem sido bem mais reduzi­dos os protestos con­tra as vio­lações da esfera privada pelo gov­erno, pelas empresas Inter­net cúm­plices e por sub­con­trata­dos pri­va­dos da segurança do Estado.
Stéphane Bus­sard nota que, influ­en­ci­a­dos pelos aten­ta­dos de 11 de Setem­bro de 2001 e pela retórica secu­ritária dos respon­sáveis políti­cos desde há mais de uma década, os cidadãos amer­i­canos se res­ig­naram. “Acabaram por aceitar o preço a pagar pela sua segu­rança. Estão dis­pos­tos a aceitar o desaparecimento pro­gres­sivo da sua esfera privada”. Para o jor­nal­ista, “num país car­ac­ter­i­zado pelo seu entran­hado indi­vid­u­al­ismo, esta con­statação é per­tur­badora”. A destru­ição da esfera pri­vada em nome da supremacia dos inter­esses secu­ritários do Estado rep­re­senta, segundo o jor­nal­ista, uma vitória sim­bólica dos ter­ror­is­tas do 11 de Setem­bro, para os quais a democ­ra­cia e a liber­dade indi­vid­ual são inimi­gos a abater.




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