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Um olhar em redor

Politicamente falando, sempre me mantive à margem de qualquer partido. Não quer isto dizer que menospreze ou não esteja atento ao governo da nação (acho que o tenho demonstrado sobejamente ao longo destas minhas habituais crónicas sem pretensões de maior) mas, decorridos que foram aqueles primeiros anos que se seguiram à revolução do 25 de Abril, bem conturbados conforme é sabido, cedo perdi as ilusões que tinha no respeitante à democracia sonhada e desejada também pela maioria do povo (situacionistas à parte, claro) privado que foi dos mais elementares princípios de liberdade, não apenas de expressão mas de muitas outras, durante quase meio século, restrições essas impostas por uma ditadura implacável em relação a todos aqueles que ousassem afrontá-la abertamente.

Joaquim Serafim Rodrigues
15 Jun 2013

Antes daquele evento revolucionário, já constituía uma proeza, um triunfo apreciável, exercer uma função, um cargo público, singrar nessa carreira até atingir os níveis mais elevados que a mesma comportava (e foi o meu caso) sem aderir à União Nacional, o único partido então existente e apoiante do governo salazarista ou, ao menos, fazer parte da Legião Portuguesa, auferindo com isso não poucos benefícios inclusive de ordem profissional, visto que, durante os respectivos concursos, tinham sempre notas positivas. Alguns desses, mais tarde saneados, atingiram posições de relevo, sem terem sequer competência para chefiarem um marco do correio!
Passei incólume toda essa longa fase incerta e cheia de riscos da nossa história recente mas, em dado momento da minha carreira, senti-me naquela situação que os trapezistas enfrentam ao evoluírem lá nas alturas sem terem uma rede por baixo…
Relato esse facto sem qualquer ponta de ostentação ou imodéstia, pois fui sempre intransigente em questões de carácter, de respeito pela palavra dada e, acima de tudo, intrinsecamente fiel a estes valores ou princípios. Talvez por tudo isto (?eles? não dormiam), fui confrontado com um convite para comandar um batalhão legionário feito pelo major que, no distrito de Viana, superintendia nessa altura e que, para o efeito, me contactou pessoalmente, conhecedor também do meu passado militar como miliciano que fui durante quase três anos, pois não licenciavam ninguém durante a II Guerra Mundial.
A sós com ele, ante as minhas evasivas cuidadosas mas firmes, o referido major disparou-me: “Afinal, o senhor, colabora com o Estado Novo ou não?”. Claro que sim, redargui, sempre calmo e sentindo bem que jogava nessa altura todo o meu futuro. E argumentei, com ênfase, a possível e adequada ao momento: ?Não acha V.ª Ex.ª que também se pode servir bem o Estado fora da Legião? Provavelmente, e queira desculpar-me se penso mal, creio que não desconhece o modo como desempenho as minhas funções actuais, dignificando um serviço público tão apreciado pelas populações como são os CTT? (e eram, de facto, nesse tempo…).
O major olhou-me, atentamente e, por fim, declarou: “Não deixa de ter razão”. Cumprimentou-me amavelmente e saiu.
Quando aludi à minha desilusão, logo de início, ela assenta nas alternâncias partidárias que, após a “revolução dos cravos” nos conduziram até à deplorável situação actual. Diogo Freitas do Amaral, conceituado político, doutorado em Direito Público, com numerosa bibliografia científica publicada, fundador e antigo líder do CDS, considerava há dias este período que o nosso país atravessa como um dos três mais negros da nossa história, sendo que os outros dois foram aquele que precedeu Aljubarrota e a ocupação Filipina durante sessenta anos (1580 – 1640)!
E assim termino por hoje, caro leitor.




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