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O necessário e o supérfluo no mundo de hoje

Como as sondagens estão na moda, eu gostaria de fazer uma para saber o que cada pessoa pensa acerca do que são bens necessários e o que são bens supérfluos. Platão no seu livro “República” (Livro II), enuncia: alimento, habitação e vestuário, como bens necessários. Mais adiante acrescenta o calçado e daí partiu para um número sempre crescente de necessidades. Karl Marx, acrescenta ao alimento, habitação e vestuário, o aquecimento e etc. (o aquecimento compreende-se porque era oriundo de um país onde o Inverno é rigoroso); S. Tomás de Aquino é da mesma opinião, até no etc., mas, como era obeso, acrescenta o transporte como um bem necessário. Por aqui se vê o subjectivismo da classificação – cada um pensa nas suas necessidades específicas.

Maria Fernanda Barroca
15 Jun 2013

Realmente não podemos ser tão sintéticos. Os bens não devem ser classificados só em necessários e supérfluos, mas também em convenientes e maus. Aqui deve haver cuidado na rotulagem. Por exemplo: um auto-rádio de excelente qualidade pode ser necessário para o vendedor que anda permanentemente na estrada e precisa dele como companhia para o ajudar a vencer o sono; já será um bem supérfluo para aquele que não sai do bulício de uma grande cidade, onde o ruído exterior abafa tudo. Uma injecção de morfina pode ser necessária para curar ou aliviar um doente, mas é, sem sombra de dúvida, má para um toxicómano.
A classificação dos bens não deve, pois, ser feita em função dos próprios bens, mas em função do indivíduo a quem se destinam. Estamos em plena euforia dos telemóveis, iPad, iphones, etc. Há pouco tempo uma senhora que ia a conduzir e levava um telemóvel na mão, teve um pequeno acidente; não chegavam a um acordo e ela disparou: “se o meu marido estivesse aqui, tudo se resolvia”. Alguém, para ajudar, disse: “Chame-o pelo telemóvel”. Aqui é que entra o insólito – o telemóvel era de plástico e servia só para fazer vista. É afinal a função de muitos dos bens supérfluos.
João Paulo II, na sua Encíclica Sollicitudo rei socialis, afirma: “os verdadeiros bens são os que abrem horizontes ao homem”.
Já Aristóteles dizia que são bens necessários (e convenientes) aqueles que tornam fácil ao homem o exercício da virtude. Mas como a virtude, que quer dizer força (do latim: virtus), perdeu paradoxalmente a sua força, este critério aristotélico tem caído em desuso. Para Aristóteles há identificação entre virtude e felicidade: “chamamos felicidade ao desenvolvimento ou expansão da actividade do espírito”.
O Papa Francisco numa das últimas Audiências Gerais das quartas-feiras, disse: “Comida desperdiçada é roubada da mesa de quem tem fome”. De facto ainda há gente que não «come para viver, mas vive para comer» e portanto há refeições gourmet onde impera o supérfluo – uma carne de primeira com um molho (o supérfluo) que lhe tira o sabor; um simples bolo de iogurte, enfeitado às cores (o supérfluo) com o inconveniente de usar produtos químicos, etc.
É verdade que o desejo de evitar o supérfluo não deve absorver-nos exaustivamente, senão estamos a pôr a “economia” acima da vida humana.
Diz o Papa Francisco, na mesma audiência: «Aquilo que domina são as dinâmicas de uma economia e de finanças carentes de ética: assim, homens e mulheres são sacrificados aos ídolos do lucro e do consumo, é a cultura do descartável».
Tem o Papa umas palavras que já o nosso Eça satirizava. Diz: Se, numa noite de Inverno, aqui, na Piazza Ottaviano uma pessoa morre, não é novidade; se em muitos lugares do mundo há crianças que não têm nada para comer, não é novidade; se os sem-abrigo morrem de frio na rua, não é novidade. Mas… se a Bolsa abre em queda isso é uma tragédia! E o Papa continua: «Nós, as pessoas, somos descartadas, como se fôssemos desperdício». Eu, com o devido respeito por Sua Santidade, acrescento que somos supérfluos.
Na mesma linha de pensamento: os idosos são um desperdício: recebem pensão de reforma e/invalidez; consomem muitos medicamentos; ocupam muitas camas nos hospitais e ainda são causa de falência para as funerárias, pois teimam em não morrer!
Já foram necessários, até pelo saber acumulado; actualmente são supérfluos para a nossa sociedade de bem-estar, que só vale o que custa dinheiro!
Por isso a amizade, a entreajuda, a boa vizinhança, estão a cair em desuso. Só ressalvo o voluntariado.




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