Fotografia:
Vira o disco e toca o mesmo

Porque nos meus tempos, saudosos tempos, de estudante, nesta cidade não havia discotecas, salões ou assembleias de baile onde a malta desse à perna ou abanasse o capacete, costumávamos procurar garagens ou eiras de casas agrícolas do subúrbio (Real, Frossos, Lamaçães) de conhecidos ou amigos para uns bailaricos de fim de semana. E, então, gira-discos debaixo de braço e meia dúzia de vinis, de preferência com chás-chás-chás, tangos, passos dobles e slows e toca a aviar que a coisa sempre prometia.

Dinis Salgado
12 Jun 2013

Todavia, como nestas artes dançantes do um-dois-três-um, dois-para-a-direita-um-para-esquerda, sempre havia algum aselha ou pé de chumbo, mais perito em calcar os calos às miúdas que acertar o passo, era ele o apontador musical de serviço (D.J. ou Disk Jockey moderno). Vai daí, quando algum dançarino estava, em determinada dança, a tirar uns troços com o seu par, o que em linguagem não cifrada quer dizer a dançar mais agarradinho e rosto contra rosto, porque as miúdas desses tempos dificilmente cediam às tentações e apelos da libido, chegada a música ao fim, atirava ao apontador:
– Ó torresmo, vira o disco e toca o mesmo.
E, assim, lá prosseguia a mesma dança até que os corpos, já moídos de voltas e reviravoltas, pediam tréguas para um suculento lanche ou o apontador musical, resolvendo pôr fim à languidez da carne, virava o disco e não tocava o mesmo.

Pois bem, transporta esta realidade para a vida política, virar o disco e tocar o mesmo é não mudar nada na ação gestionária ou governativa, ou seja, é deixar tudo na mesma ou ter mais do mesmo. O que, em tempos, na chamada primavera marcelista de 1968 a 1974, se designou por evolução na continuidade e levou aos resultados de todos conhecidos.
Ora, como se aproximam eleições autárquicas, o vira o disco e toca o mesmo ganha foros de atualidade e resiliência na apresentação, por parte dos partidos políticos, de certos candidatos. Ou porque lhes dá garantias de vitória ou o aparelho partidário local impõe a sua vontade.
Vejamos, por exemplo, o que se passa com a candidatura do Partido Socialista (PS) à Câmara Municipal de Braga. O candidato escolhido, atual vice-presidente da  autarquia, para suceder a Mesquita Machado, dificilmente poderá descolar da herança e imagem do “dinossauro” e garantir, em caso de vitória, a independência, criatividade, inovação e mudança que se desejam numa gestão autárquica aberta ao futuro.
Porque estas candidaturas de proximidade acarretam sempre vícios de forma nos métodos, processos e hábitos de gestão, mormente de gestão da coisa pública. Gestão que não passará, pois, do mais do mesmo, da evolução na continuidade, do vira o disco e toca o mesmo.
E leva a que seja lícito perguntar:
– E bom viver em Braga?
E lógico responder:
– Só p’ralguns! Só p’ralguns!
Então, até de hoje a oito.




Notícias relacionadas


Scroll Up