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O «quase Papa»

1A história não é feita só de grandes acontecimentos. Ela é também tecida de pequenas circunstâncias e não poucos incidentes. Só que, habitualmente, a pequena história não chega ao grande público. E, se chega, não chega por via pública. Chega, antes, pela inconfidência, pelo sussurro, muitas vezes pela insinuação. 2. É por via desta pequena história que encontramos uma figura hoje praticamente desconhecida, mas que esteve à beira de ser Papa: não uma, não duas, não três, mas quatro vezes. É, de facto, voz corrente que, em quatro dos oito conclaves que decorreram no século XX, o cardeal Giuseppe Siri esteve sempre entre os maiores favoritos.

João António Pinheiro Teixeira
11 Jun 2013

3. Já em 1958, com apenas 52 anos, terá entrado nas cogitações dos cardeais.
Só que, após um pontificado de quase vinte anos (o de Pio XII), prevaleceu a opção por um pontificado mais curto. E, na verdade, João XXIII já tinha 77 anos quando foi eleito.
Consta, aliás, que o cardeal Pietro Ciriaci terá espirituosamente vaticinado que, se Siri fosse eleito, teríamos tido não um «Santo Padre», mas um «Eterno Papa»!
4. Tudo indicava, entretanto, que o momento da eleição de Siri tinha chegado em 1963. E o certo é que um conjunto de cardeais ter-se-á abeirado dele no sentido de que aceitasse.
Acontece que Siri não se terá mostrado receptivo. Parece que o Concílio Vaticano II, que estava em pleno curso, não lhe suscitava especial entusiasmo.
As atenções viraram-se, então, para outros nomes. E o escolhido foi o cardeal Montini (Paulo VI).
5. No primeiro conclave de 1978, Siri foi o mais votado nos primeiros escrutínios. Todavia, nos seguintes, Albino Luciani, passou para a frente. E aquele que Basil Hume qualificou como o «candidato de Deus» viria a ser o Papa João Paulo I.
O «candidato óbvio» não passaria de uma promessa? Para Siri, nem à terceira foi de vez!
6. Sucede que, volvido pouco mais de um mês, o «Papa do Sorriso» morre e mais um conclave se inicia.
Siri destaca-se desde o princípio, mas, quando parecia que pouco faltava, os votos começam a diminuir.
7. O que parecia inevitável transforma-se em impossível.
E é Karol Wojtyla, inicialmente com poucos votos, que se torna no Papa João Paulo II.
8. Que se terá passado? Dizem que o que mais pesou foi uma entrevista que Siri deu à «Gazzetta del Popolo».
Nela, fazia uma avaliação negativa das mudanças introduzidas pelo Concílio Vaticano II, criticando (embora com respeito) a acção de João XXIII e Paulo VI.
9. Perante estas declarações, os poucos votos que faltaram nunca chegaram a aparecer. E foi assim que o outrora visto como «Eterno Papa» se converteu em «quase Papa», em «nunca Papa».
Há momentos em que o silêncio, mesmo não sendo eloquente, pode ser persuasivo. E muito mais convincente!




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