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Duas velas, nenhuma chama

Quando se comemora um aniversário há festa, com bolo, velas e também com quem sopre. Convida-se a família e os amigos e há alegria. Quarta-feira passada completaram-se dois anos desde que Passos Coelho recebeu dos portugueses o contrato assinado para os representar. À efeméride não compareceu quase ninguém, só os poucos que ainda acreditam. As velas estiveram sem chama e houve razões para isso.

Luís Martins
11 Jun 2013

Estive a comentar o facto com um amigo que me disse, e cito de cor: “Fui apoiante indefectível do Passos. Li o livro que escreveu. Procurei ver aspectos positivos nas suas primeiras medidas. Dei-lhe até algum desconto tendo em conta a situação a que o país tinha chegado. Passados dois anos, sinto-me enganado e deixei de estar alinhado. Resolvi afastar-me. Aliás, há muito que já não estou na onda. Fui chamado à atenção, parei para pensar, mas verifiquei que estava certo. São os amigos que mo dizem. É a experiência que mo confirma. É a minha consciência que me impõe que seja pela defesa da verdade, pelos oprimidos de hoje, num regime que é cada vez menos democrático, que roça, por vezes, a ditadura, quando usa e abusa da prepotência”. Estranhei o comentário, mas não pude deixar de dar razão ao interlocutor. Qual de nós, que acreditou na mudança, no cumprimento do contrato assinado, não se sentiu depressa defraudado com o discurso e a prática da governação?

A efeméride coincidiu com o mea culpa do FMI. Não sabíamos que algum credor daria a mão à palmatória, mas sabíamos – pelos vistos, menos o Governo – mesmo antes daquele assumir que se tinha enganado na dose de austeridade, prescrevendo mais do que a necessária, que o Governo, seguindo o receituário com uma subserviência de asno, sem análise crítica, e lhe ter acrescentado, como néscio, ainda uma porção suplementar de medicamento, nunca poderia apresentar resultados positivos. Assim aconteceu e a culpa não foi, certamente, do “mau tempo no canal”, como agora se defende.

O Estado vive hoje mais – muito mais – à custa das famílias do que antes. Apesar disso, este mesmo Estado tem a lata de dizer que cada família deve ainda muito mais agora do que há dois anos aos credores, sendo certo que todas estão hoje mais empobrecidas do que antes. Estranho, não? Uma recessão descomunal, desemprego a níveis como nunca antes tinha acontecido, uma dívida pública proibitiva para as possibilidades do país, são outros resultados da actividade governativa. Isto basta para dizer que têm razão aqueles que dizem que o país está pior do que há dois anos atrás. Por isso, o primeiro dia da comemoração do segundo aniversário – o outro será no último terço do mês – não tem razão de ser. Antes pelo contrário. Comemorar o quê? Até porque as velas estão sem chama. Os pavios estão muito curtos e talvez não cheguem até ao próximo aniversário. Comemoramos o que é bom, não o que nos prejudica. Comemoramos o 25 de Abril, não o seu contrário. E o que temos não corresponde nem aos anseios nem às promessas de há dois anos atrás.

Foi-nos dito que não era precisa mais austeridade da que havia na altura, mas fomos sufocados com mais e mais impostos. Os resultados têm sido uma lástima. O desemprego está quase nos 18% – não tarda, por cada cinco portugueses em idade activa estará desempregado pelo menos um – quando há dois anos atrás o flagelo já era considerado alto com os 12,1% atingidos. A dívida pública vai nos 127%, quando há dois anos era já demais e estava nos 94%. Pode dizer-se, com propriedade, que nos levaram ao tapete em 2011, mas o Governo actual está a calcar-nos a cabeça quando ainda estamos no chão. A responsabilidade não está solteira. Ninguém aplica mais austeridade do que a precisa quando se não acredita nela.

Teme-se que o país vá ficar ainda pior. Alguém terá de fazer alguma coisa. Os caros leitores podem fazer, eu também posso fazer, mas não temos competência bastante para alterar o rumo das coisas.




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