Fotografia:
O Divórcio

Foram divulgadas há dias as projeções económicas da OCDE. As últimas estimativas do Governo e da Comissão Europeia apontavam para uma recessão de -2,3% do PIB. Para a OCDE, a contração da economia nacional será ligeiramente superior, 4 décimas de ponto percentual. Se em termos nacionais se deu relevo à estimativa agravada do comportamento da economia, desvalorizou-se o principal factor que a explica. De facto, a OCDE veio duplicar a estimativa de recessão para o conjunto de países do Euro.

Nuno Reis
10 Jun 2013

Ora, sabendo-se como se sabe que a nossa recuperação económica está muito dependente do crescimento das exportações, o agravar da situação dos nossos principais parceiros comerciais, destinatários das exportações portuguesas, ajuda a explicar o aumento das nuvens negras que sobre nós pairam.
O agravamento acentuado da economia europeia merece um olhar mais atento.
A Itália teve em Monti, até recentemente, o mais competente líder que poderia ter à frente de um Governo de perfil técnico. As políticas desenvolvidas seguiram o guião do “receituário” europeu de saída da crise, prescrito pela Alemanha e pelas economias do “Euro forte” (usando uma designação que Vítor Bento, com grande propriedade, usou recentemente).
A resposta do eleitorado italiano foi a que foi: 10% dos votos para Monti, fortalecimento de candidatos anti-sistema como Grillo, o ressurgir do populismo de Berlusconi, às portas da vitória com 1/3 dos votos.
À falta de resultados imediatos das medidas de austeridade implementadas, acentua-se um “divórcio” com o povo que desconfia da colheita a longo prazo de benesses dessa política e prefere castigar quem fala de reformas estruturais ou as implementa. É mais fácil acreditar em vitórias palpáveis ao virar da esquina do que numa recompensa do longo prazo que traz, no imediato, sofrimento e resultados contrários aos almejados.
Com a França a caminho da recessão e a Alemanha, mais cedo do que tarde, a poder experimentar esse caminho, cabe perguntar se não seria melhor para todos tentar uma saída articulada deste labirinto.
Ou a fragmentação das políticas dá lugar a uma maior coordenação ou o processo de transferência de riqueza da Europa para a Ásia, em particular para a China, arrisca-se a ser mais doloroso do que o que, em condições normais, teria de ser. Com o termo “espiral recessiva” a poder, aqui, ser utilizado num novo contexto: os povos chumbam quem tenta implementar o atual “receituário”, colocam no poder quem não tem margem para, por si, fazer diferente, a classe política sai cada vez mais desacreditada. Este é o caldo de cultura ideal para “Grillos” ou fenómenos ainda piores.
O divórcio entre eleitos e eleitores acentua-se com cada vez melhores condições para o irromper de radicalismos ou nacionalismos exacerbados que já se pensava terem dado à Europa as lições que, ela própria, teria aprendido com a história.
E se o termo “austeridade”, naquilo que em si encerra, nada tem de vicioso, arrisca-se a ser derrotado pela conotação que as pessoas, destinatários e agentes das políticas, lhe vão dando.
A Europa corre o risco sério de, ao seguir de forma global mas fragmentada, ao mesmo tempo, o mesmo caminho, não permitir que os desequilíbrios de uns sejam corrigidos à custa do equilíbrio de todos. Ora, se até a Alemanha ainda recentemente veio anunciar cortes no seu próprio Orçamento para 2014…
Não é hoje concebível um alterar de política económica nacional sem uma mudança na política europeia ou na receita europeia de saída da crise.
Mais ainda quando Portugal é hoje, e assim será pelo menos até à “saída” da troika, se tudo decorrer normalmente em Junho de 2014, um país com a sua soberania económica condicionada.
Urge que as instâncias europeias não se preocupem apenas com os países da periferia onde as reformas estruturais e os cortes orçamentais são necessários – instando-os a não desistir e auscultando as linhas mestras da política orçamental destes – mas que olhem também, com a visão global que só a União poderá ter, para aqueles onde é possível (quiçá desejável) políticas mais expansionistas ou, pelo menos, de consolidação orçamental não tão forte.
Ao atrasar-se a fazer a sua parte, a teimosa passividade da liderança europeia, cada vez mais centralizada na Alemanha, arrisca-se a tornar o divórcio entre pessoas e políticas num processo penoso.




Notícias relacionadas


Scroll Up