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Portugueses desconfiados

Um inquérito realizado por uma empresa internacional de relações públicas ofereceu aos media nacionais um dos sound bites da semana: “Os portugueses estão cada vez mais desconfiados”. De meia em meia de hora, durante uma boa parte de terça-feira, o noticiário da TSF informava que, segundo o estudo da Edelman Trust Barometer, realizado em 26 países, os portugueses confiam cada vez menos no Governo, nas notícias e no rumo da Europa. “A desconfiança crescente começa logo no momento em que ouvimos as notícias”, registava o jornalista Nuno Guedes.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
9 Jun 2013

Outras listas, divulgadas noutras ocasiões, têm dado conta de outras desconfianças muito profundas, mas, desta vez, a falta de confiança apenas atinge o que se vê nas televisões, ouve nas rádios e lê nos jornais, o Governo e o destino europeu.

Há, evidentemente, fundadas razões para cimentar uma boa parte da desconfiança existente. Mas a falta de confiança tão amplamente partilhada, que, no dia-a-dia, a propósito e a despropósito, mistura “culpados” e “inocentes” no mesmo saco da suspeita, coloca um grave problema. Como explicava a filósofa Michela Marzano, numa entrevista concedida ao Libération (“La confiance est un pari”, 25 de Novembro de 2012), sem esse valor nenhuma sociedade consegue sobreviver, razão por que, aliás, ela resolveu empreender um combate pelo regresso à confiança entre as pessoas.

Michela Marzano, que é professora na Universidade Paris Descartes e também colunista no diário italiano La Repubblica, culpa a ideologia liberal e o mito da confiança de cada um em si próprio pela instauração de um sentimento de desconfiança generalizada, que tantos estragos têm provocado na nossa sociedade. Diz ela que, à custa de ter enganado as pessoas durante tanto tempo, o capitalismo deixou de suscitar qualquer confiança. “O sistema bancário afundou-se pela perda de confiança nos empréstimos interbancários. Os dirigentes disseram então: ‘É necessário que a confiança regresse’. Mas isso não basta, a confiança não se decreta. Depois de a terem destruído, não conseguem que ela regresse com um estalar de dedos”.

De resto, observa Michela Marzano, o mal–estar é bastante profundo. “Perderam-se certas referências, esqueceu-se a importância da cooperação e do que ela significa”. A filósofa, autora de Contrato de desconfiança (Paris : Grasset, 2010), refere o exemplo das empresas, que, por terem instaurado o modelo do “todos contra todos”, já não são capazes de promover um trabalho em equipa. Foi, aliás, a ideologia dominante na gestão empresarial que provocou estragos em toda a sociedade.

“Esta guerra de todos contra todos, que se enquadra bem no modelo ultraliberal, faz, de facto, a apologia dissimulada da desconfiança”, considera Michela Marzano, que recorda o que se passou nas últimas décadas. “Disseram-nos que era necessário ter uma grande confiança em si próprio e não ter confiança nos outros, o que era visto como um sinal de fraqueza. Opuseram-se os ‘winners’ (triunfadores) aos ‘losers’ (derrotados)”. Os ‘triunfadores’ eram os que confiavam neles próprios, os que dispensavam a colaboração dos outros. “A confiança acabaria reduzida a uma ‘competência pessoal’”.

Se é certo que a necessidade de maximizar o interesse próprio tem sido defendida desde o século XVIII, outrora, contrariamente ao que sucede hoje, a cooperação não era excluída. Para a filósofa, “a única maneira de sair deste ambiente de suspeição generalizada impõe que se reencontre um mínimo de confiança mútua”. A necessidade é óbvia: “Nenhuma sociedade consegue sobreviver sem este cimento”.

Aliás, prossegue Michela Marzano, é num clima de cooperação que os indivíduos dão o melhor de si próprios. “Quando se faz a escolha aparentemente irracional de cooperar, de ter confiança, toda a gente se sai melhor. É isto o sonho da democracia. Colocar a cooperação em primeiro plano não implica a negação das especificidades, dos talentos, dos méritos de cada um. Não se trata de alienar o indivíduo, de renunciar a interesse próprio. Pelo contrário”.

A chave para resolver o problema é a educação, garante Michela Marzano. “É preciso retomar o bê-á-bá desde a escola primária, uma vez que a hipercompetitividade já aí reina”. No mundo da educação, o que deve valer não é a competitividade, mas a cooperação. “O retorno da confiança demorará muito tempo. Mas é preciso começar a reinstaurá-la”. E é verdade: “A mudança é agora”.




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