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Empalhar ou clarificar?

A nomeação de um bispo, facto normal e frequente na vida da Igreja, acordou a opinião pública e deu a toda a gente ocasião e tempo para falar, opinar e imaginar. Foi assim, poderá dizer-se, porque se trata de uma nomeação do Porto para Lisboa e de uma figura mediática conhecida. Isto tem levado os jornalistas, talvez porque cansados e sem novidades na política e no futebol, a esmiuçar a vida do agora nomeado, porque a notícia, só por si, apenas venderia no dia em que se tornou pública. Daí para diante houve que dar espaço à coscuvilhice, que nunca se faz sem algum incómodo para a pessoa em causa.

D. António Marcelino
9 Jun 2013

A eleição do Papa e os seus gestos e intervenções diários mantêm um clima de Igreja na ribalta. O mesmo clima que se alimenta, por agora, com a nomeação do novo patriarca. Como a entrada na diocese será só em julho, são de esperar, neste entrementes, novos capítulos e novas revelações.
Sendo este, embora, um acontecimento interno à vida da comunidade cristã, não é de estranhar que extravase os limites do templo. Deverá constituir, por isso, uma ocasião para ajudar as pessoas a lê-lo melhor e refleti-lo com cuidado, para além do seu significado mais óbvio. Ocasião para clarificar mais do que para empalhar.
A missão do bispo tem, para a Igreja, e mediante esta para a comunidade humana, um significado de alcance pouco conhecido e a necessitar de esclarecimento. Neste contexto, o bispo precisa, para seu bem e bem de todos, de ter consciência de estar sob os olhos de quem o vê, como uma vida que encarna, como o disse o Papa Francisco, o poder como serviço. Muita gente continua a dizer, mesmo no interior das comunidades cristãs, que o bispo é o que manda na diocese e, dada a importância da capital, que o bispo de Lisboa é o que manda na Igreja em Portugal. Um pensar tão difundido como errado. O que é de estranhar, após 50 anos de Concílio.
Por influências históricas, de que a Igreja mais tem de se penitenciar e humilhar do que de se comprazer e ufanar, a categoria do poder episcopal, como “mando”, à maneira humana, entranhou-se nas portas e paredes dos templos, ganhou ferrugem e tornou-se difícil a sua remoção, tanto dentro como fora dos espaços religiosos. Esta peçonha histórica pegou-se também a alguns padres e, por via destes, até a leigos. Começa-se por mostrar generosidade e entrega. Mais tarde, para muitos, o poder torna-se saboroso e vem a tentação do prestígio e do carreirismo, que o Papa denuncia como pobreza e desvirtuamento do ministério.
O Concílio Vaticano II deixou clara a missão da hierarquia eclesiástica como serviço a todos. Há que assumir e viver esta missão com sentido e dela fazer testemunho por todos os meios. Essa é, seguramente, a preocupação de todos os bispos e dos padres, ajudados pelas suas comunidades, mais a servir que a mandar.
O Papa Francisco, falando há pouco aos bispos da Itália, ilustra, de maneira muito direta e acessível, o perfil do bispo servo e pastor de uma comunidade eclesial, que é também o perfil de qualquer bispo, mesmo que não tenha já funções de governo. Adverte da tentação do carreirismo e da indiferença que tanto pode nascer da dificuldade dos problemas a enfrentar, como de se servir deles. Diz o Papa: “Ser pastor significa dispor-se a caminhar no meio e atrás do rebanho; ser capaz de ouvir a história silenciosa de quem sofre e de apoiar o passo de quem receia não ser capaz; é estar atento para ajudar a levantar, a serenar e a incutir esperança, a pôr de parte toda a espécie de preconceito e a inclinar-se sobre todos quantos o Senhor confiou à sua solicitude”. Esta atenção às pessoas, que nunca se pode secundarizar, é o caminho certo para todas as tarefas episcopais. A esta luz se aprofunda a pregação, se orienta a celebração dos sacramentos, se planifica a pastoral, se promove a caridade, se edifica a comunidade, se vai ao encontro dos marginalizados, se acertam os passos para lograr a renovação das estruturas pastorais intocáveis ou alimentadas por critérios humanos e de bairrismo local, se encontram, em cada tempo, as palavras que não se podem calar e as decisões que não se podem adiar. Os problemas sociais e os desvios políticos obrigam o bispo a intervenções e decisões, livres e libertadoras, porque são sinais com dimensão humana e social, sempre interpeladores da missão de quem serve. O bispo não fala forçado pelos outros, mas pelo dever premente de ser voz dos que a não têm e denunciador dos que não respeitam nem promovem o bem comum.




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