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Um olhar em redor

Este nosso país, podendo e devendo orgulhar-se dos seus heróis, dos seus santos e conquistadores, cientistas, inventores, homens de letras não apenas escritores, mas jornalistas ilustres também, poetas insignes entre os quais destaco Florbela Espanca e Fernando Pessoa, para não citar outros (Camões, o maior, com seu génio, imortalizou e congregou-os a todos, “àqueles que por obras valorosas se foram da lei da morte libertando”) esta nossa ditosa Pátria gerou igualmente, por mal dos nossos pecados, alguns traidores e, bem assim, inúmeros corruptos e falsários.

Joaquim Serafim Rodrigues
8 Jun 2013

Ocupando-me apenas destes (e são muitos ainda hoje), nenhum igualou, por enquanto, a façanha ímpar de Artur Vergílio Alves dos Reis que, no já longínquo ano de 1918, então com 25 anos de idade, concebeu e cometeu a maior fraude de que há memória: tendo-se relacionado para o efeito com várias personalidades importantes quer portuguesas quer estrangeiras, e a pretexto de promover o desenvolvimento de Angola (possuía vários documentos falsos, um dos quais o acreditava como engenheiro dos caminhos de ferro daquela colónia…) conseguiu que fossem emitidas notas de quinhentos escudos precisamente impressas em Inglaterra, na mesma empresa onde o Banco de Portugal, ao tempo, mandava imprimir essas mesmas notas. Só deram por isso anos mais tarde por mero acaso, ao verificarem que duas dessas notas (afinal verdadeiras, já que conseguira até o aval do próprio Banco de Portugal!) tinham exactamente o mesmo número.
Esse seu plano tinha uma característica fundamental – era totalmente inédito. Alves dos Reis, incriminado e julgado por fim (a sua proeza originou um autêntico sismo de proporções incalculáveis que abalou diversas instituições bancárias e outras no estrangeiro) mas, dizia, tendo sido julgado, cumpriu a pena de 8 anos de cadeia na Penitenciária de Lisboa. Saiu em liberdade no ano de 1945, mas era já um homem diferente, precocemente envelhecido e doente, vindo a falecer em Lisboa vítima de uma angina de peito em 1955 e sepultado envolto apenas num lençol, como pedira, e num caixão de pinho, tendo ficado no cemitério do Alto de S. João.
Esta brevíssima introdução (a história completa dava um romance) serve quando muito para reflectirmos acerca do tratamento que presentemente é dado a todos aqueles que, ocupando cargos importantes, deles se servem para, entre vários ilícitos, se locupletarem com aquilo que não lhes pertence, lesando terceiros e desacreditando as respectivas instituições a que presidem (Câmaras Municipais, Institutos, Fundações, Universidades Privadas, Bancos, etc., etc.). São inúmeros os casos: BPN, Face Oculta e, agora, o do antigo político Duarte Lima que também está a ser julgado, perdendo-se já, na memória do tempo, outros processos dos quais poucos se lembram, arrastando-se nos tribunais, de recurso em recurso, a caminho das prescrição alguns deles.
Cumprir as leis, as normas, a regulamentação em vigor é fácil, uma vez colocados os homens certos no lugar certo. Só que eles não estão lá, mas sim outros que, falhos de escrúpulos e astutos acima da média, persistem dolosamente nos seus perversos objectivos.
Aligeirando um tanto esta minha crónica quase no fim, pergunto: não seria apropriado acrescentar ao actual conjunto de condecorações já existentes uma qualquer insígnia que distingue-se estes eméritos, verdadeiros filhos da Pátria? Não sendo possível atribuir-lhes a Ordem da Torre e Espada, muito menos a de Cristo, nem nenhuma das outras, talvez uma outra Ordem, a da Penitência, por exemplo, Penitenciária queria eu dizer, desculpem-me o lapso. Mas desta, como sabemos, estão quase todos eles livres, perante este sistema judicial que temos, mediante o qual, conforme afirmou há tempos a magistrada Maria José Morgado, estão as nossas cadeias cheias de “pobres diabos”.
E é tudo por hoje.




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