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“O melhor povo do mundo”

1 Quem não se recorda ainda do dito, “O melhor Povo do mundo”, após as históricas manifestações do 15 de Setembro último (1 milhão de portugueses nas ruas do País)? Ora, “o melhor povo do mundo” é cada vez mais um povo exaurido e sem vida. A esse arroubo do Ministro das Finanças na Assembleia da República, um deputado respondeu que “Portugal tem o melhor povo do mundo” mas talvez “o pior Ministro das Finanças”.

Acílio Rocha
8 Jun 2013

Todavia, se recordarmos melhor, “o melhor povo do mundo” foi também quem já “viveu acima das suas possibilidades”, é “piegas” e já foi “cigarra; e os que, dramaticamente, se viram sem trabalho, foram censurados por não saberem aproveitar a oportunidade. Aliás, “o melhor povo do mundo” foi depois mimoseado com um orçamento devastador – “um enorme aumento de impostos” –, tão mais insólito quando dito por um ministro das finanças.

2. Seja-nos permitida uma simples imagem: a sociedade portuguesa é como um corpo que jaz estendido, sangrando; e, sem economia (o “sangue” da vida económica), esse corpo extinguir-se-á: não somente como Nação, em múltiplas hostes de desempregados, mas como sociedade, numa multidão de pobres vagueando pelas ruas. Está em causa a sobrevivência do País!
Quando “o melhor povo do mundo” perdeu o poder de compra, a recessão é medonha, a classe média está exaurida, quando fecham diariamente lojas e restaurantes, pequenas e médias empresas não vendem por falta de mercado interno, quando a esperança se extinguiu do horizonte, quando as pessoas foram preteridas por modelos abstractos, projecções e estatísticas (ainda por cima, falhadas), quando as promessas eleitorais de ontem são a negação da (des)governação de hoje, há que nos interrogarmos sobre a legitimidade de um governo que assim frusta a grande expectativa dos cidadãos.
E a receita tributária diminuiu? Não saltava à vista? Com o desemprego sempre a aumentar (mais de um milhão de portugueses), empresas a falir, uma recessão sem paralelo, uma economia destroçada e sem mercado interno, onde se iria buscar tal receita? Não é preciso frequentar um curso de economia para perceber isso: como é que a receita poderia aumentar, se “o melhor povo do mundo” que antes pagava (IRS, IRC, IMI, IVA, etc.), agora já não paga, muito simplesmente porque já não tem que pagar pois já não pode pagar?

3. Apesar da situação catastrófica da Grécia, a verdade é que o seu primeiro-ministro continua a lutar por melhores condições, menores juros e mais tempo de recuperação. A Irlanda, essa nem sequer permitiu que lhe tocassem na taxa de IRC de 12,5% (por muito injusta que seja para os outros países). O Primeiro-Ministro italiano pede desculpas por alguma emigração, prometendo combatê-la nas suas raízes. O Primeiro-Ministro de Espanha recusou sempre o resgate financeiro que lhe queriam impingir. Ao invés, o Primeiro-Ministro português desde cedo se mostrou aluno submisso, indo sempre “além da troika”. Certamente, a própria troika estará estupefacta com tal atitude aquiescente, quando a Grécia pede mais tempo, a Irlanda bate o pé, a Espanha segue o seu caminho e a Itália faz ouvir a sua voz…

4. Não é de neoliberalismo que se trata. Se este prossegue um “Estado mínimo”, não o faz subindo impostos; ao contrário, interessa-lhe mais famílias e empresas a pagar: pagando menos, mas sendo mais (e com poder de compra), a receita aumentará. Esse foi, bem ou mal, o propósito de Thatcher, na década de oitenta. Do que se trata, entre nós, é de um neobolchevismo que prossegue com avidez o confisco dos bens da classe média. Se os bolchevistas colectivizaram os bens à força, isso faz-se hoje por um outro tipo de violência, confiscando os rendimentos de trabalhadores e dos reformados ou pensionistas; a estes últimos só falta dizer: “morram”. Como é amiú-de noticiado, quantas vezes as famílias são impelidas a entregar as suas casas à banca, ou, implacavelmente, milhares de penhoras se abatem sobre “o melhor povo do mundo” que já não pode mais.

5. De facto, o Governo português revelou-se incapaz sequer em controlar o défice e a dívida pública, não obstante o saque nos salários de trabalhadores e reformados, a brutal carga de impostos directos e indirectos (dos mais altos da Europa), sempre somando mais austeridade à austeridade, exigindo mais e mais a quem mais não aguenta, e menos a grandes companhias, à banca, aos que originaram a crise actual (PPP’s, rendas excessivas, etc., não esquecendo as pensões vitalícias obtidas em 8 ou 12 anos), enfim, a quantos se têm banqueteado em regalias do Estado (não são os funcionários públicos nem os aposentados que descontaram o tempo todo). Mas deixemos este assunto para o tema da Reforma das funções do Estado: será que em vez de buscar-se a reforma de Estado para servir “o melhor povo do mundo” (o que não se faz num trimestre), se quer obstinadamente um Estado ao serviço de grandes interesses, ainda mais servil do que já o é?




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