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De novo o (des)acordo ortográfico

Depois de o Governo brasileiro ter empurrado com a barriga para as “calendas gregas” a aplicação do Acordo Ortográfico, são cada vez mais, em Portugal, as vozes que se levantam contra a “subserviência” do nosso país na aplicação precoce do mesmo. Talvez a maioria dos leitores desta crónica não saiba que a Faculdade de Letras de Lisboa não aplicou o Acordo; que a Associação Portuguesa de Linguística tem divulgado duras críticas ao mesmo; que a Associação de Editores e Livreiros tem revelado grande distanciamento em relação a ele; e que até a Sociedade Portuguesa de Autores e a Associação Portuguesa de Escritores não o aceitam…

Victor Blanco de Vasconcellos
6 Jun 2013

Isto para já não referirmos posições individuais de reconhecidas personalidades da cultura portuguesa que, de forma determinada, se recusam a aceitá-lo e a aplicá-lo – como o poeta Vasco Graça Moura, os filósofos José Gil e Eduardo Lourenço, e o escritor António Lobo Antunes, entre muitos outros.
Mais do que um Acordo Ortográfico de índole “científica” ou “cultural”, ele tem uma natureza eminentemente política. Esta “raiz” política já foi, inclusivamente, reconhecida pelo maior defensor, em Portugal, do Acordo (o Prof. Malaca Casteleiro), que, em entrevista ao jornal “Expresso”, proclamou: “Isto não é uma questão linguística, é uma questão política, uma questão muito importante do ponto de vista da política de língua no âmbito da lusofonia”…
Os fautores e defensores do Acordo Ortográfico quiseram “unificar” a língua portuguesa, mas acabaram por dividir académicos e homens da cultura – e, mais do que isso, acabaram por dividir os vários países da lusofonia. Porque há umas nações que institucionalmente aplicam o Acordo e outras que claramente o recusam; e há ainda aqueles que, como o Brasil, vão adiando a sua “experimentação”, num evidente desprezo pelo “acordo” assinado pelos vários políticos da lusofonia, desprezo esse que anuncia uma aplicação das novas regras lá para o dia de “São Nunca”!
Porque às escolas portuguesas foi politicamente imposta a aplicação deste Acordo, a maioria dos jornais portugueses passou a aplicá-lo. Todavia, há imensos articulistas que continuam a utilizar a ortografia “antiga”, gerando uma confusão enorme e demonstrando que não há consenso na sociedade e nos “media”. E até os nossos canais televisivos, nas mensagens de “rodapé” que vão fazendo correr ao longo do ecrã, escrevem hoje segundo o novo Acordo e amanhã com a ortografia anterior!
Recentemente, o escritor e cronista Pedro Mexia afirmou, a propósito deste assunto: ”Este acordo não serve, não presta, é preciso denunciá-lo ou, no mínimo, revê-lo em profundidade”.
Não podia ter maior razão!




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