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Monumento à polémica

Não sabia que a polémica se podia erigir em estátua mas afinal parece que pode. E vai acontecer aqui em Braga! Já se percebeu que me estou a referir à estátua do Cónego Melo, que por estes dias já está em preparativos. Tal é a pressa… Se em vida da estatual personagem a putativa estátua não passou, agora que o manto diáfano da morte se estendeu sobre as razões que então bastaram e sobraram para contrariar a ideia, é bem possível que passe. Sem grande alarido. Todavia, numa asserção puramente freudiana, o esquecido não é resolvido, entendamo-nos. É do conhecimento geral que o Cónego Melo se destacou, no chamado Verão Quente, como um anticomunista convicto, época em que aconteceram os ataques às sedes dos partidos comunistas na região norte. Do que não resulta de modo irrefutável o seu envolvimento directo ou indirecto nas ocorrências.

Maria Helena Magalhães
5 Jun 2013

É também do conhecimento geral que o padre Max, e uma estudante que o acompanhava, foi assassinado em 1976 por atentado bombista. O processo judicial que então foi instaurado conheceu diversas vicissitudes, com arquivamentos e reaberturas que culminaram em 1999 com uma sentença de absolvição dos respectivos arguidos, operacionais do MDLP, por falta de provas irrefutáveis. Não obstante, persistirá para muitos a dúvida.
Vem este episódio à colação porquanto o Cónego Melo foi, levianamente ou não, e o próprio sempre o negou veementemente, relacionado com o MDLP, movimento anticomunista, supostamente liderado pelo general Spínola, no exílio, comummente implicado em acções bombistas e nos atrás referidos ataques a sedes de partidos de esquerda. Ora, que o Cónego Melo perfilhava uma ideologia anticomunista presumo que não será novidade para ninguém, muito menos para os seus mais próximos. Que os ataques às sedes do partido comunista aconteceram – muitos porventura se recordarão do incêndio da sede do partido comunista no Campo da Vinha, aqui em Braga – é facto comprovado. As correlações são de quem as quiser fazer.
Donde, a figura bracarense que agora se pretende homenagear em estátua é, quer queiram os promotores ou não, susceptível de gerar opiniões desencontradas, se não antagónicas. Umas e outras são legítimas. Vivemos num país onde, felizmente, impera a liberdade de expressão e o direito de opinião. Então, por muito que alguns não aceitem, pretende-se erigir um monumento à polémica.
De assunto em assunto, não deixa de ser curioso o facto de a deliberação de colocação da estátua ter ocorrido na mesma reunião camarária em que também, e no caso vertente pela segunda vez, foi deliberada a expropriação dos prédios contíguos à Casa das Convertidas que, conforme o senhor presidente Mesquita Machado afirmou, suscitou grande polémica. Embora o próprio, registe-se, não tenha entendido por que razão se gerou tal polémica (!!??). E é bem possível imaginar que de igual modo não lhe tenha ocorrido, nem a nenhum dos seus vereadores, que a decisão de erguer a estátua também seria motivo de polémica. O que não deixa de ser no mínimo estranho para quem governa a cidade há tantos anos!
Portanto, a cidade de Braga está em maré de polémicas que quem polemiza entende, e defende, muito bem mas que a maioria socialista que suporta o governo municipal, constatando-as e criticando-as, faz questão de ignorar.




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