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Um dia, quando tudo for mais difícil…

Quando tudo for mais difícil, será tarde. Haverá seguramente responsáveis, mas, como das outras vezes, não se sentirão como tal. Não lhes vai acontecer nada. Das outras vezes, também não aconteceu. Enquanto esse dia não chega, e já tarda, Portugal fica a penar. Faz-me confusão o facto de Portugal ser considerado o bom aluno quando apresenta tão maus resultados. É na economia. É no desemprego. É na dívida pública, que supostamente está na origem do recurso aos credores internacionais. É no défice, que teima em não corresponder às expectativas do Governo. E noutras contrariedades. Na vida, bons resultados é outra coisa. É ser bem classificado, é ter sucesso, é ser distinto, é ter prosperidade e riqueza. Por cá, não há nada disso. Antes pelo contrário. Mas o Governo diz que sim.

Luís Martins
4 Jun 2013

Outra singularidade tem a ver com o Memorando. Durante o Governo de Sócrates, foi distribuída a cópia em língua estrangeira, mas ao fim de algum tempo, pudemos lê-lo em português. Sofreu, entretanto, várias revisões, ao ponto do documento original ficar descaracterizado, como dizem os especialistas, mas não tem sido traduzido, quando devia ser uma preocupação de quem manda, manter o acordo permanentemente traduzido. Desde logo, para afastar dúvidas de que possa lá haver alguma cláusula que o povo não deva saber.
Certa é a austeridade que está aí, não sabemos é se condiz. O Governo pratica-a até com um certo ecletismo: tem escolhido o que há de pior em termos de austeridade nos diversos relatórios que encomendou e certamente pagou ou vai pagar, por preço que não pagaria por cá. Havia e há, certamente, nas universidades do nosso país, quem pudesse fazer bons estudos para servir o país, no entanto, talvez não servisse o propósito do Governo. Talvez, por isso, é que em vez de um ano de recessão e dois de crescimento, como estava previsto no Memorando de Entendimento, teremos três de recessão e talvez não se fique por aí.
Não era difícil adivinhar qual seria o resultado. Perante isso, o Governo fala agora numa nova fase. Mas, apesar do discurso engatilhado de que a hora é do investimento, a verdade é que as medidas anunciadas não compensarão a austeridade em curso. E há que contar que virá outra tanta austeridade, neste e nos próximos dois anos, que vão anular qualquer tentativa séria de crescimento. A técnica de Kabat de esticar, aliviar, para depois esticar de novo e mais violentamente, posta em prática ainda no Governo Sócrates, tem sido modificada, para pior, pelo actual Executivo que esticou, esticou e voltou a esticar e embora dê mostras (penso que aparentes) de alívio, com a designada fase do investimento, o objectivo é apertar de novo até com todos os músculos. A fisioterapia que deveria servir para recuperar, não sendo praticada por profissional competente, acaba sempre por prejudicar. No caso em apreço, os estragos serão enormes e irrecuperáveis. Com os músculos tão estourados, sem força, será difícil segurar o esqueleto.
E há ainda quem espere que haja consenso. Não há e será difícil. Apesar do país precisar de um Governo forte e de um alargado consenso político e social, a verdade é que não é forte, apesar de ter apoio de maioria parlamentar, e não existe consenso alargado com outras forças políticas e com os parceiros sociais. O momento não é propício para isso – as tácticas partidárias impedem compromissos nesta fase do ciclo político – e nem o Executivo está disposto a ceder em alguns dos seus objectivos. Além disso, é preciso legitimar o Governo e isso só vai conseguir-se com novas eleições. Pode ser legítimo pelo voto, mas só enquanto cumprir o programa e as promessas.
Não basta uma ou outra medida para o crescimento quando o resto do programa é dar cabo da economia. Um dia, quando tudo estiver estragado, quando tudo for mais difícil, será tarde demais para que o Presidente ouça a voz dos portugueses ou o primeiro-ministro se dê conta que está a ser um estorvo.




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