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Camané e o naufrágio do Marabuto

1 – Memórias da nossa recuada infância). Eu tive a sorte de ter tido uma infância equilibrada e feliz, no seio de uma família normal, coisa que vai hoje infelizmente sendo cada vez mais rara. E parece que este bom ambiente na nossa infância contribui bastante para que em adulto sejamos também nós, pessoas equilibradas, inteligentes e felizes. Ora uma das muitas memórias que guardo dessa minha infância é a de, contrariado, ter de acompanhar as excursões de pesca, no norte da Ria de Aveiro, do meu avô materno e do meu tio-avô e padrinho, com frequência na companhia do meu pai ou de outras pessoas. O barco era do meu pai, um pequeno barco a motor com uma amostra de capota, que veio substituir um mais antigo e mais fechado, do meu avô, de nome Flamingo, mas que sarcasticamente o meu tio chamava de “tamanco”.

Eduardo Tomás Alves
4 Jun 2013

O frio e o vento tornam uma tarde de outono no meio da Ria uma experiência desagradável. Mas também no pino do verão: o calor, o moliço, as moscas e mosquitos, o característico “chape-chape” da água no casco, a luz solar sem sombras, que impede a leitura de qualquer livro. Tudo isso aliado à monotonia de estar às vezes meia-hora até que algum robalo ou tainha “picassem”. Tudo isso significava para mim uma tarde perdida. Para eles não, que gostavam e eram capazes de estar ali calados, num êxtase que nunca compreendi. Quem queira saber mais deste meu avô terá de ter a bondade de comprar a minha pequena biografia sentimental (ilustrada) que lhe fiz há poucos anos editada pela paróquia de Ovar. Chamava-se “O dr. Álvaro Esperança, meu avô” e a sua 2.ª edição penso que até estará já esgotada. Este meu avô médico, homem alto e de figura pombalina e feitio autoritário, foi nos anos 50 e 60 importante dirigente local do Salazarismo. Era originário do “sul”. De Coimbra por parte do seu pai, contra-mestre ferroviário. E de Santarém por parte da mãe, de família com algumas tradições (para mim, pelos genes deve até remontar ao “divino Júlio”…).
Ao contrário, o meu tio Arnaldo Coelho, também médico, era democrático, bem humorado e popularíssimo, ao ponto de em 74 se ter tornado o 1.º presidente de câmara que a Feira teve no pós-25 de Abril, mais ou menos conotado com o PS. E em 95 foi o mandatário concelhio para a (falhada) eleição presidencial de Cavaco. É através aliás deste meu tio que eu sou primo em 3.º grau do voleibolista olímpico João Brenha.
2 – O choque do “naufrágio do Marabuto”). Para uma criança de poucos anos como eu era, soou estranha, trágica e ameaçadora (mas distante e romântica, também) a notícia que um dia os meus avós de Ovar e tios da Feira deram. A de que o seu conhecido Marabuto, tinha morrido na Ria, já não me lembro bem como, mas por a sua lancha se ter virado. Havia também algo de escandaloso nisso, porque o tal sr. Marabuto morreu “com a amante”. O que me chamou a atenção na altura foi o nome esquisito do senhor. E o facto, novo para mim, de se poderem quebrar regras matrimoniais assim (e ser–se feliz, parecia-me): o morto ia com a amante. O caso ficou para sempre na minha memória. E ressuscitou há meses, quando o fadista Camané participou num episódio de uma série televisiva dedicada a estabelecer a genealogia dos convidados.
3 – Camané, Herman José e Elizabete Jacinto). Baseado num “formato” americano, salvo erro o do programa “Who do you think you are?” (Quem é que você pensa que é?), durou pouco tempo em Portugal, consabidamente “país de cultura”, um programa televisivo idêntico, que passou na RTP. Por sorte consegui ver a parte alemã (que não a andaluza) do cómico Herman José. Também vi o da notável corredora de motos e camiões do “Paris-
-Dakar”, Elizabete Jacinto, com origens modestas em Silves e Tábua. E o do fadista Camané, lisboeta com origens na zona de Aveiro (Murtosa). No caso de Herman, ficou-se a saber que o seu apelido Krippahl  afinal não é bávaro, mas originário de uma vila (Hilter) no ocidente dos místicos montes de Teutoburgo, onde no ano 9 d. C., o famoso Armínio (Herman) massacrou o general romano Varo e as suas 3 legiões, a 17, a 18 e a 19.
4 – Camané é da família dos Marabutos). Dos 3 irmãos fadistas (Hélder, Pedro e Camané) eu aprecio até mais o timbre de voz do Hélder. Mas o Camané não deixa de ser artista de alguma qualidade. E ficou no programa a saber que o seu avô era da Murtosa, dos tais Marabutos. O genealogista local dizia que em Aveiro, “marabuto” significa marinheiro, embarcado, marnoto. Nunca ouvi dizer, mas pode ser verdade. Eu pensava que a alcunha pudesse ser fisionómica, ligada à ave africana “marabu”; aliás assim chamada porque lembrará os ascetas muçulmanos e guardas de fronteira medievais, os “murabit”.




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