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O país dos “doutores”

O ensino superior atravessa um dos momentos mais difíceis do seu historial. Não me refiro, neste caso, ao pessoal docente e não docente. É uma questão complexa e demasiado sensível, tem vertentes dolorosas e grandes espinhos na caminhada. Começo por endereçar o mérito com justiça a quem termina o curso do ensino superior. Correspondeu a um objetivo pessoal e não defraudou o erário público que, contribuindo através dos seus impostos para a manutenção da funcionalidade das universidades, espera por um investimento ao serviço de interesse comum da sociedade civil, científica e logística.

Albino Gonçalves
3 Jun 2013

Testemunha-se, porém, que há no país “doutores” em excesso, tendo em conta a escassa oferta no mercado do trabalho qualificado. A continuar assim, teremos um cenário sombrio e insolvente. Assistimos já a situações de pessoas licenciadas, e algumas habilitadas com o mestrado, a desempenharem funções outrora ocupadas por quem só possuía o ensino básico.
Na verdade, não é estranho encontrarmos um licenciado em tarefas de operador de caixa, mensageiro, auxiliar em instituições de solidariedade social e de saúde pública, cozinheiros, empregados de mesa, balconistas, enfim… um vasto leque de profissões em nada relacionadas com as suas habilitações técnicas de nível superior. Aliás, já existem pessoas do ensino universitário que se encontram desempregadas e que, em grande escala, optam por formas de subsistência precárias, chegando a ocupar o tempo com a frequência de cursos modelares de formação profissional de pequena duração, com o intuito de fazerem às suas dificuldades financeiras…
É inadmissível que jovens licenciados “emigrem” para além-fronteiras, porque o nosso país está na “cepa torta” e nada faz para os manter no seu território. É um absurdo constatar que não há alternativas para eles. Não percebemos que haja uma governação que os empurre para a emigração, assim como não compreendemos o papel das Universidades, que promovem cursos “mortos à nascença”, com publicidade enganosa em termos de resultados e perspetivas de inserção no mercado laboral. Não basta cativar alunos para o ensino superior: tem de haver um sentido de responsabilidade na integração no mundo do trabalho, para que, após a conclusão do seu Curso, tenham a oportunidade de exercer a atividade para a qual estão tecnicamente habilitados.
Há situações desesperantes na procura de emprego. Há licenciados que, nas entrevistas de candidatura a um lugar, chegam a omitir as suas reais habilitações académicas de nível universitário, por saberem que os empregadores não gostam de contratar pessoas com o ensino superior concluído.
Urge parar para, com honestidade, se debater este problema do ensino superior e das suas repercussões no mercado do trabalho, pois trata-se de um problema muito sério. Tão sério que mandamos emigrar pessoas que se formaram nas universidades com uma forte participação do erário público, sem que haja, terminados os respetivos cursos, uma rentabilidade desse investimento comunitário. Assim como é urgente que se procurem respostas que atenuem os problemas de uma geração injustamente penalizada!




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